Por JÚLIO MIRAGAIA, de Belém (PA)
Dez anos após o início das operações da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, em Altamira, comunidades tradicionais seguem denunciando impactos considerados permanentes sobre a vida na região. Apresentada pelo governo federal como estratégica para ampliar a autonomia energética do país, a usina se tornou também símbolo de disputas ambientais, ações judiciais e denúncias de violações contra povos indígenas, ribeirinhos e pescadores da Volta Grande do Xingu.
Considerada a maior hidrelétrica totalmente brasileira e uma das maiores do mundo, Belo Monte completou dez anos de funcionamento em maio de 2026. O empreendimento possui 18 turbinas e capacidade instalada superior a 11 mil megawatts. Desde 2016, já gerou mais de 255 milhões de megawatts-hora, volume suficiente para abastecer o Brasil por cerca de cinco meses. Em horários de pico, chegou a responder por até 16% da demanda nacional de energia elétrica.
Para moradores e movimentos sociais da região, porém, os números da geração energética contrastam com o cenário vivido pelas comunidades atingidas. Moradora de Altamira e integrante do movimento Xingu Vivo para Sempre, Josefa de Oliveira afirma que o saldo deixado pela usina é marcado pela destruição dos territórios e pelo agravamento das condições de vida das populações tradicionais.
“O saldo que nós temos apos dez anos é a ruptura do território, das comunidades tradicionais, de laços parentescos e a ruptura com o que era natural para toda esta população. O que podemos ver é um desastre ambiental de consequências que atingiram comunidades tradicionais, beiradeiros, mariscadores, bem como populações indígenas dessa região”, declarou.

Moradores da Volta Grande do Xingu denunciam redução da vazão do rio, queda da pesca, dificuldades de navegação e insegurança alimentar ao longo da última década. Foto: arquivo Xingu Vivo
Ao longo da última década, indígenas, pescadores e ribeirinhos passaram a denunciar mudanças profundas no rio Xingu após o desvio de parte de suas águas para o funcionamento da usina. Entre os principais impactos apontados pelas comunidades estão a redução da vazão na Volta Grande do Xingu, queda na quantidade de peixes, dificuldades de navegação, insegurança alimentar e hídrica e a inviabilização de práticas tradicionais ligadas ao rio.
Segundo estudos e monitoramentos independentes realizados na região, a alteração do fluxo do Xingu afetou diretamente a pesca, o transporte fluvial e a reprodução de espécies aquáticas. Povos indígenas também relataram diminuição significativa da oferta de peixes em áreas onde comunidades historicamente dependiam do rio para alimentação e geração de renda.

Josefa de Oliveira afirma que comunidades tradicionais tiveram laços familiares, territórios e formas de sobrevivência profundamente afetados após a instalação da usina. Foto: reprodução arquivo pessoal
Josefa afirma que muitos desses impactos já foram reconhecidos judicialmente. “Nós podemos observar que os impactos estão sendo vividos por essas populações que foram deslocadas de seus territórios. Podemos citar os próprios ribeirinhos do lago do reservatório de Belo Monte que hoje lutam por um processo de recomposição do seu modo de vida assim como os mariscadores e beiradeiros ali da Volta Grande do Xingu que já conseguiram provar na justiça que a vazão da água para seus territórios tem nos impactado muito fortemente”, afirmou.
Ela acrescenta que a redução da água no rio compromete diretamente a permanência das comunidades em seus territórios tradicionais. “Muitos deles conseguiram provar que esse impacto está impossibilitando o desenvolvimento do modo de vida tradicional nessa região”, disse.
As denúncias relacionadas aos impactos de Belo Monte chegaram ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos e seguem em discussão na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Decisões recentes da Justiça brasileira também determinaram medidas como revisão da gestão da água do Xingu e fornecimento de água potável para comunidades afetadas.

Ocupação em Belo Monte em 2012. Foto: Verena Glass
Organizações indígenas e ambientais afirmam ainda que várias condicionantes ambientais e compensações prometidas durante o processo de licenciamento da usina continuam pendentes. Criado em 2008, o Movimento Xingu Vivo para Sempre se consolidou como uma das principais articulações de resistência à hidrelétrica, reunindo povos indígenas, agricultores, pescadores e movimentos sociais da região.
Apesar de reconhecer avanços no debate sobre grandes empreendimentos na Amazônia, Josefa avalia que as populações tradicionais continuam sendo colocadas em segundo plano nas decisões sobre desenvolvimento. “Hoje as populações tradicionais continuam em segundo plano então não podemos afirmar que há um melhoramento nesse sentido”, declarou.
A Norte Energia afirma, em manifestações públicas, que cumpre as obrigações socioambientais previstas no licenciamento e mantém investimentos em saúde, educação, infraestrutura, reflorestamento e monitoramento ambiental na região. Ainda assim, dez anos após o início das operações, Belo Monte permanece dividindo opiniões entre a importância da geração de energia para o país e os impactos humanos e ambientais deixados sobre o Xingu e seus povos.