O rio nem precisava pensar para existir, corria, só isso, corria, e talvez fosse isso que doía, porque Álvaro Antônio precisava pensar, precisava sentir o peso de estar ali, sentado à mesa de fora, na calçada à beira do barranco do bar do Zé do Branco, no bairro da Base, à margem do Acre, olhando a água como se a água dissesse alguma coisa, como se houvesse um segredo, um enigma, alguma resposta enfiada naquele movimento sem pausa, e a vida talvez fosse só isso mesmo.
Fim de tarde, mas fim de quê, pensou, porque a brisa morna subia do rio e a noite vinha sem pressa, derramando esse tom indeciso sobre as coisas, nem claro nem escuro, como se o mundo também hesitasse, e as luzes amareladas, brancas, trêmulas, batiam na garrafa e voltavam em manchas estranhas, quase alucinações, como se até o vidro soubesse mais do que ele.
Do outro lado, na Gameleira, as conversas, os carros, as motos, as buzinas, as músicas velhas, tudo chegava dissolvido, como se o ar mastigasse os sons antes de entregá-los, e aquilo virava eco, resto, névoa, lembrança de alguma coisa que talvez nunca tivesse sido inteira.
E ali, entre o barulho e o silêncio, tinha alguma coisa, alguma coisa que os outros fingiam não ver, ouviam e recuavam. Ele não, ele tinha acordado para si mesmo, mas não era um despertar bonito, desses que prometem claridade, era um abrir de olhos dentro de um quarto sem portas ou janelas.
Quando isso tinha começado, nem sabia, talvez nem tivesse começado de verdade, talvez fosse só um acúmulo, gota por gota, consciência subindo devagar desde a infância como água de enchente até o peito, até a garganta, até faltar ar. Levantou o copo, hesitou, bebeu
A bebida desceu sem resolver nada, como todos os gestos que a gente repete só para não admitir o vazio. Não era sede, não do corpo, era outra coisa, uma vontade inútil de interromper o pensamento, de tampar a fenda antes que ela abrisse mais, porque pensar demais é perigoso, pensar é perder o chão, é ouvir rachaduras onde antes parecia haver uma muralha.
O rio seguia sem parar, e então veio aquilo, não como consolo, nunca como consolo, mas como uma clareza fria: não era o rio que passava, era ele, era sempre ele que passava, escorrendo pelos instantes no exato momento em que os vivia. Nada ficava. Tudo era sequência. E toda sucessão levava alguma coisa embora. Sempre alguma coisa. Sempre perda. Lembrou da infância, dos doces momentos; foi tudo tão rápido, como cheguei aqui? Se perguntou assustado com os 65 anos vividos enquanto a água do rio corria…
— Você parece longe.
A voz chegou de fora, como se viesse de outro plano, e ele demorou um segundo para voltar. Virou o rosto devagar. Zé do Branco. Dono do bar. Homem de meia-idade, rosto gasto, uma serenidade estranha, como se tivesse sido montada aos poucos, na insistência dos dias iguais, no costume de aguentar o peso da vida como Sísifo rolando a pedra para o topo da montanha infinitamente.
— Talvez eu esteja.
— O rio tem dessas coisas, eu naveguei muito por ele — disse Zé do Branco, apoiando-se na cadeira vazia ao lado. — Faz a gente pensar demais.
Álvaro Antônio quase sorriu.
— Ou não deixa mais a gente parar de pensar.
Zé riu, mas daquele jeito curto de quem reconhece um terreno ruim e prefere não entrar. Logo voltou para dentro, para a luz, para o balcão, para as coisas que ainda obedeciam a alguma lógica simples. Álvaro ficou. Os olhos no rio. Como se dali ainda pudesse vir alguma coisa.
Tinha alguma coisa ali, ele sentia, naquele embate mudo com a água, e não dava para desviar, porque olhar já era entrar, já era participar, já era ser puxado. O tempo não era pensamento, não era teoria, não era palavra bonita. O tempo era uma força, um movimento. E ele estava dentro dele, afundando nele, levado por ele.
Pensou na vida, se é que aquilo ainda podia ser chamado de pensar e não de cair, não como uma sequência de fatos, mas como um movimento para alguma coisa que ele nunca soube nomear.
Havia desejos, claro, projetos, planos, essas formas precárias de alinhar o disperso, mas agora tudo parecia frágil, provisório, montado sobre barranco mole, sobre chão que cede na cheia. Qualquer sentido podia descer arrastado. E talvez já estivesse descendo.
E a angústia não era defeito, não era falha da mente ou desordem a ser varrida para debaixo das rotinas. Era revelação, uma fresta aberta à força por onde aparecia aquilo que normalmente fica coberto pelo trabalho, pela casa, pela igreja, pelo lazer, pelas pequenas certezas que ajudam a atravessar o dia. A angústia mostrava o desamparo. Mostrava que não havia garantia nenhuma.
Ser, então, não era ter dentro de si uma forma pronta, uma essência, mas estar exposto o tempo todo à necessidade de escolher sem nunca possuir firmeza suficiente. Escolher, perder, seguir, escolher de novo. Fechou os olhos.
Por um instante tentou só ouvir, sem pedir mais nada: o rio, o vento leve, o rumor abafado do bar. Tudo existia sem se explicar, sem se justificar, sem dever resposta a ninguém. Só ele exigia do mundo um sentido que o mundo nem ninguém tinha obrigação de dar. E foi aí que alguma coisa cedeu. Não fora, mas dentro dele.
Quando abriu os olhos, nada tinha mudado e, ainda assim, já não era o mesmo cenário. O rio continuava correndo com sua indiferença antiga, as vozes seguiam no bar e na Gameleira, o mundo permanecia intacto em sua falta de respostas.
Mas ele entendeu, ou talvez só tenha parado de resistir, que essa ausência de fundamento não era obstáculo nenhum. Era a condição. Não haveria ponto final, nem lugar de repouso garantido. Havia só movimento. E ele estava dentro desse movimento. Respirou fundo.
Pela primeira vez naquela noite, no bar do Zé do Branco, não tentou conter o pensamento nem fugir dele. Ficou ali, sustentando o peso sem se dobrar totalmente, como quem reconhece que há cargas que não desaparecem, apenas passam a caber nos ombros. A vida vale, mas também pesa o mundo inteiro.
Havia nisso uma lucidez estranha, quase uma forma de dignidade. Levantou o copo outra vez, mas não bebeu. Só o segurou por um momento, sentindo o peso simples e concreto daquele objeto na mão, como se aquilo bastasse, ao menos por agora. Depois pousou o copo na mesa. O rio seguia. E ele também. Não porque tivesse encontrado respostas, mas porque seguir em frente talvez fosse a única resposta possível…
P.S. Ficção