mãe vive rotina longe do filho para realizar sonho na PM

A maternidade já carrega desafios por si só, mas para a acreana Ingrid, de 31 anos, o amor pelo filho precisou aprender a conviver diariamente com a distância, a saudade e os desafios da carreira militar.

Natural de Cruzeiro do Sul, ela é mãe de Heitor, de 4 anos, e atualmente vive sozinha em Rio Branco enquanto conclui a formação como aspirante a oficial da Polícia Militar do Acre. O esposo e o filho permanecem em Cruzeiro do Sul, aguardando o momento do reencontro definitivo da família.

Segundo ela, história na carreira militar começou há poucos anos, incentivada pelo marido, que é bombeiro militar. Na época, Heitor não tinha mais que 2 anos.

“Foi por incentivo do meu esposo. Quando saiu o edital do concurso para oficial da Polícia Militar, ele perguntou se eu queria fazer. Eu tinha acabado de voltar a estudar para concurso e pensei: ‘vou tentar’. Ele sempre falava que a carreira militar era muito boa, muito gratificante. Eu fui muito influenciada por ele nessa decisão, mas naquela época eu ainda não tinha noção de tudo que ia precisar enfrentar para chegar até aqui”, relembra.

A distância


Aprovada no último concurso para oficial da PM, Ingrid precisou sair de casa para viver uma das fases mais difíceis da sua vida. Durante um ano, morou sozinha em Belo Horizonte para a formação militar, enquanto o filho, que tinha apenas 2 anos, permaneceu em Cruzeiro do Sul ao lado do pai.

Durante cerca de dez meses, conseguiu viver com o esposo e o filho na capital.

Durante cerca de dez meses, conseguiu viver com o esposo e o filho na capital | Foto: Cedida

“Eu já sabia que, se fizesse a matrícula, ia precisar abrir mão da maternidade por um tempo para poder seguir a carreira militar. Mas uma coisa é saber, outra é viver aquilo. Meu filho tinha dois anos quando eu fui embora. Eu lembro que viajei chorando. Brinco que passei quatro dias chorando porque ainda não acreditava que estava deixando ele tão pequeno longe de mim”, conta.

Durante aquele período, Ingrid teve que enfrentar a distância e matar a saudade por meio de videochamadas.

“Mesmo depois de uma semana longe dele, ainda não tinha caído a ficha. Eu pensava o tempo inteiro que tinha deixado meu filho. Foi um ano muito difícil. A gente se acostuma a falar por vídeo, tenta acompanhar o crescimento, mas não é a mesma coisa. Você sente que está perdendo momentos que nunca mais vão voltar.”

Ao retornar para o Acre, Ingrid ainda precisou concluir mais um ano de curso em Rio Branco. Durante cerca de dez meses, conseguiu viver com o esposo e o filho na capital. Depois, a família voltou para Cruzeiro do Sul, enquanto ela permanece sozinha há cerca de 6 meses para cumprir o estágio probatório.

A culpa que acompanha muitas mães

Ingrid conta que, mesmo quando estavam juntos em Rio Branco, a rotina militar dificultava momentos simples da maternidade.

“O nosso horário começa muito cedo. Muitas vezes eu não conseguia sequer deixar ele na escola. Meu esposo era quem levava, buscava, organizava tudo. A gente percebe que não consegue fazer tudo sozinha. Precisa muito de uma rede de apoio. E quando eu chegava em casa, depois de um dia cansativo, ainda tentava dar atenção, brincar, conversar, mas nem sempre tinha energia. Isso machuca muito”, lembra.

A culpa pela ausência, segundo Ingrid, é um sentimento constante na vida das mães, principalmente quando a profissão exige distância.

“A culpa acompanha a mãe desde o momento em que ela se torna mãe. E no meu caso, o que mais pesa é o tempo longe dele. Me doía não conseguir participar das atividades da escola, não conseguir estar presente em momentos simples do dia a dia. Às vezes ele queria brincar, conversar, gastar energia, e eu só queria deitar porque estava exausta. Isso vai criando um peso emocional muito grande.”

A maternidade dentro da segurança pública


Mesmo diante do desgaste, ela acredita que o amor pelo filho ajuda a seguir em frente. Para Ingrid, ser mãe também muda a forma como uma mulher atua na segurança pública. Segundo ela, o instinto de cuidado e proteção faz diferença no trabalho policial.

“Eu tento pensar que tudo isso é por ele. Não só pela questão financeira, pela estrutura melhor que vou conseguir oferecer, mas também pela sociedade que eu quero ajudar a construir. Quando a gente trabalha na segurança pública, a gente pensa muito em proteger outras famílias também. Eu quero que meu filho cresça em um lugar mais seguro. A mulher tem uma sensibilidade maior. Muitas ocorrências exigem calma, conversa, acolhimento. E a mãe aprende isso diariamente dentro de casa. A gente aprende a lidar com emoções, a contornar situações difíceis, a proteger. Eu acredito que isso ajuda muito no trabalho policial e faz da presença feminina algo essencial dentro da segurança pública”, ressalta.

Mas o peso emocional da profissão vai além da rotina cansativa, existe também o medo. Entre lágrimas e saudade, Ingrid admite que um dos maiores medos de quem trabalha na segurança pública é não voltar para casa.

“Na maioria das profissões, você sai de casa sabendo que vai voltar no fim do dia. Na segurança pública, existe uma preocupação maior. A gente sabe que pode acontecer alguma coisa. E como mãe, isso pesa muito psicologicamente, porque o que a gente mais quer é ter tempo suficiente para criar os nossos filhos”, desabafa.

Agora, a contagem regressiva é para agosto, quando ela espera concluir o estágio probatório e retornar para casa

Agora, a contagem regressiva é para agosto, quando ela espera concluir o estágio probatório e retornar para casa | Foto: Cedida

“Não deixem a culpa decidir por vocês”


Mesmo vivendo longe do filho e enfrentando as dores da maternidade à distância, Ingrid faz questão de deixar uma mensagem para outras mulheres que sonham em crescer profissionalmente, mas têm medo de não conseguir conciliar a maternidade.

“Eu diria para elas não deixarem a culpa e o julgamento da sociedade decidirem suas vidas. A maternidade já é um trabalho muito pesado por si só, independentemente da escolha da mulher. Mas é possível conciliar, mesmo com dificuldades, mesmo sentindo culpa às vezes. Vale a pena continuar lutando pelos seus sonhos.”

Café, colo e tempo recuperado


Agora, a contagem regressiva é para agosto, quando ela espera concluir o estágio probatório e retornar para casa. E o sonho do reencontro não envolve luxo, viagens ou grandes comemorações. Ingrid só quer viver aquilo que a distância transformou em algo raro: tempo para ouvir o filho, brincar, conversar e viver momentos comuns que, para ela, ganharam um valor enorme.

“A primeira coisa que eu quero fazer é aproveitar meu tempo livre com eles. Levar o Heitor para passear, sentar numa cafeteria com ele. Eu sempre dizia para o meu esposo que ele seria meu companheirinho de cafeteria. Quero ouvir tudo que ele aprendeu nesse tempo, todas as palavras novas, tudo que ele quiser me contar. Quero passar um dia inteiro sendo só mãe”, revela.

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