A agonia da verdade | O Imparcial


Marque certo ou errado para esta afirmação: do mesmo modo que Nietzsche disse que “Deus está morto”, podemos afirmar que a verdade está morrendo. Afastada a polêmica de quem entendeu do entendimento de cada um, é inegável que a verdade está perdendo força na sociedade pós-moderna.

A propagação das mentiras tornou-se uma atividade  cotidiana, inclusive divulgadas com as técnicas de especialistas. Não se pode mais confiar nas informações que se vê, seja no Youtube, seja em noticiários e em vídeos que se recebe, em versões propagadas pelas bolhas e outros meios de comunicação. Estamos assistindo estarrecidos à guerra contra o Irã. As narrativas são contraditórias. Em que versão pode-se confiar?

A mentira, sendo rápida, pode surgir logo no amanhecer, por um vídeo encaminhado por amigos ou familiares, por algum fanático incapaz de questionar ou avaliar seu conteúdo. Às vezes, chega de madrugada.

O avanço da mentira está caminhando para admitir-se como correta a sentença (se não me engano do próprio Nietzsche) de que o fato não existe, o que vale é a versão. E cada pessoa dá a versão que entende correta. A diversidade de narrativas antagônicas é surpreendente. Há um livrinho de Byung-Chul Han sobre A crise da narração, por ele chamada de pós-narrativa. Se hoje estamos bem informados, diz ele, em contrapartida estamos desorientados.

Os mentirosos antigos eram ingênuos e folclóricos. Em todas as cidades do interior encontra-se um mentiroso conhecido e respeitado como tal. Eu tinha um primo que mentia em cadeia, desde criança. Se ele tinha um sonho, contava como uma aventura em que ele era o protagonista. Quando ouvíamos alguma narração muito exagerada, dizíamos que se tratava de uma mentira cabeluda.

Hoje a propagação de falsidades pode ser perversa, dolosamente preparada para prejudicar alguém, sabedor de que um dos efeitos imediatos da mentira é provocar uma reação, o impulso de quem não pode parar para refletir.

A pressa com que a mentira se propaga pode levar até à morte da vítima, pelo desvario da turba ensandecida. Lembrem-se do caso da professora em São Paulo que foi linchada porque acusaram-na de ser a mulher que estava sequestrando crianças na região.

A arma mais poderosa contra a mentira e a favor da verdade é adotar a dúvida como parâmetro. A dúvida não tem pressa. Pede tempo para as perguntas, para avaliar e para pensar, sobretudo pensar. O transmissor das mentiras não tem capacidade de pensar.

E agora, com o poder da inteligência artificial, a verdade está ainda mais ameaçada. Os artifícios dessa ferramenta anestesiam os incautos que aderem a tudo que estão vendo e lendo na tela. A própria imagem e a voz da vítima podem ser manipuladas para criar uma versão que faz parecer irretorquível, o que faz lembrar o conhecido ditado italiano: se non è vero, è ben trovato. Invocando Descartes, tornou-se uma missão, para os que pensam, semear a dúvida, sempre a dúvida, continuamente a dúvida.



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