Ninguém olha para as pontes: rachaduras invisíveis!


Entre as duas pontes do centro da cidade, um homem em situação de rua pesca olhando a correnteza barrenta do rio. Têm os cabelos desgrenhados, a pele tostada pelo sol e os olhos inquietos de quem conversa sozinho há muito tempo. Dizem que é louco. Mas existem lucidezes profundas em sua loucura. Como o Raul Seixas ali, controlando a maluquez, misturada com a lucidez.

De repente, enquanto observava os carros atravessando a velha ponte Coronel Sebastião Dantas, construída nos anos setenta pelo governador Dantinha, pensou: Quantas toneladas de vidas já passaram sobre esse concreto?

Quantos caminhões carregados de madeira, boi, sonhos, mudança e saudade atravessaram aquela estrutura suspensa sobre o rio? Quantos homens apressados indo trabalhar? Quantas mães voltando do mercado? Quantos apaixonados? Quantos mortos sendo levados pela cidade rumo ao cemitério?

Olhou para si e pensou: A ponte suporta tudo em silêncio. Eu também.

Achava curioso que raramente via alguma operação de reparo na velha ponte, que parece nova.  Pouco cimento novo. Mesmo assim, ela resiste ao tempo, às chuvas, ao peso brutal da existência humana atravessando diariamente suas vigas cansadas.

Assim como ele… sorriu sozinho. Talvez as pontes e os homens abandonados possuam algo em comum: continuam de pé mesmo quando ninguém mais acredita muito nisso.

Olhou os pilares escurecidos pela água e sentiu que também era concreto gasto pelo tempo. A cidade passava sobre ele sem percebê-lo, exatamente como passava sobre a ponte.

Automóveis, buzinas, pressa, indiferença. Ninguém olha para aquilo que sustenta silenciosamente o peso do mundo … o rio corria devagar embaixo. As águas sempre sabem.

Pensou então que a loucura talvez fosse apenas enxergar demais. Ver o desgaste invisível das coisas. Compreender que toda estrutura, seja de aço, concreto ou carne humana, possui rachaduras escondidas. A ponte tinha as suas. Ele também. E ambos continuavam resistindo naquele estranho equilíbrio entre ruína e permanência.

Pescou um piranambu (o urubu d’água, termo pejorativo burguês, na verdade, uma delícia de peixe para os famintos). Apesar da fome (a barriga colando nas costas do corpo magro) retirou o anzol da boca do peixe e tornou a soltá-la no rio. Depois ficou olhando a correnteza, como se esperasse que ela lhe respondesse alguma coisa antiga sobre o peso da vida, das cidades e dos homens esquecidos como ele, dos invisíveis – visíveis à violência.



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