Ex-Bope diz que ataque em escola no Acre revela “camadas de negligência” na prevenção da violência


O especialista em segurança pública e ex-comandante do Bope do Rio de Janeiro, Rodrigo Pimentel, analisou nesta quinta-feira, 07, o ataque ocorrido no Instituto São José em Rio Branco, no Acre, que deixou duas funcionárias mortas e outras duas pessoas feridas.

Na publicação, Pimentel afirmou que episódios como esse não devem ser tratados como casos isolados, mas como consequência de falhas acumuladas na prevenção da violência no ambiente escolar.

Em vídeo publicado nas redes sociais, o especialista fez uma retrospectiva de ataques em escolas no Brasil e citou profissionais da educação que morreram durante ações violentas enquanto tentavam proteger os estudantes.

“Perdemos ontem a tia Zena e a tia Raquel. Mas antes disso, em Santa Catarina, perdemos a tia Kelly, a tia Mirla. Antes disso, no Espírito Santo, perdemos a tia Sibeli, a tia Maria da Penha e a tia Flávia”, afirmou.

Ele também destacou que, ao longo dos últimos 15 anos, o país registrou dezenas de mortes em ataques dentro de escolas. “Nos últimos 15 anos no Brasil, tivemos 55 pessoas mortas em escolas, incluindo alunos, coordenadores, merendeiras, zeladores, vigias, profissionais de educação”, disse.

Pimentel ressaltou o comportamento de profissionais da educação que, segundo ele, morreram tentando proteger alunos durante os ataques. “Em várias situações, colocaram seus corpos para proteger as crianças que sequer eram seus filhos. Foram verdadeiras heroínas”, declarou.

Ao comentar especificamente o caso ocorrido no Acre, o especialista afirmou que a situação precisa ser analisada em diferentes níveis, começando por falhas na identificação e resposta ao bullying nas escolas.

“E eu preciso analisar o que aconteceu em Rio Branco, na capital do Acre, em camadas. A primeira camada é que sim, em 80% das ações, isso começa com uma ação de bullying que não foi identificada pela escola. E quando é identificada, não tem uma ação de resposta imediata”, afirmou.

Segundo ele, a ausência de punições mais rígidas contribui para a continuidade do problema. “O autor do bullying não é punido de forma muito severa. Isso é uma realidade no Brasil e no mundo também”, disse.

Na segunda camada de análise, o ex-comandante do Bope criticou a legislação relacionada ao controle de armas de fogo e a responsabilização de adultos envolvidos em casos como o registrado no Acre.

“Esse padrasto irresponsável não teve a capacidade de tutelar essa arma de fogo. Infelizmente, o nosso Estatuto do Desarmamento prevê uma pena muito pequena para esse tipo de negligência, de 1 a 3 anos de detenção. Esse padrasto, que certamente, na minha opinião, é partícipe dessa tragédia, não vai ser punido. Vai responder em liberdade”, disse.

O especialista ainda comentou o tratamento jurídico aplicado a adolescentes envolvidos em crimes graves no Brasil. “Aliás, esse adolescente assassino também não vai ser preso. No máximo, 3 anos de uma medida socioeducativa. Ou seja, o assassino de Rio Branco vai estar nas ruas com 16 anos”, afirmou.

Na última parte do vídeo, Pimentel fez um apelo direto às famílias para maior participação na rotina escolar dos filhos e na cobrança de protocolos de segurança. “Você que é pai, visite a escola particular ou pública do seu filho, pergunte para o diretor se tem protocolo com a identificação de bullying, se tem protocolo para ação de emergência, se tem ações de prevenção, de treinamento”, disse.

Ele alertou que, sem mudanças estruturais, episódios de violência podem continuar se repetindo. “Num país sem leis, onde o padrasto não vai ser punido, onde esse adolescente não vai ser punido, isso infelizmente veio para ficar”, afirmou.

Ao final, prestou homenagem aos profissionais da educação mortos em ataques e reforçou a necessidade de mudanças. “Essas tias verdadeiras heroínas colocam seus corpos aí sem treinamento nenhum para proteger nossos filhos. Minha homenagem a elas. E vamos torcer para que isso mude”, concluiu.

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