São Paulo – A polícia apreendeu, na manhã desta segunda-feira (4), o quarto adolescente identificado como um dos envolvidos no caso de abuso contra duas crianças ocorrido na semana passada na zona leste de São Paulo. O único adulto envolvido no estupro, Alessandro Martins dos Santos, de 21 anos, foi encontrado após fugir para a Bahia. O caso ocorreu em 21 de abril na comunidade de União de Vila Nova, bairro na Subprefeitura de São Miguel Paulista, na zona leste da capital.
Os agressores – um adulto e quatro adolescentes – gravaram o estupro e compartilharam as imagens em uma rede social. Em um dos vídeos, de 63 segundos, as crianças choram, gritam e falam ao menos nove vezes “para” e cinco vezes “eu não quero”. Enquanto isso, os violadores riem, insistem no ato e agridem as vítimas.
A investigação aponta que os agressores conviviam com as vítimas e se aproveitaram dessa relação para cometer os crimes.
“Eles eram vizinhos, e eles conviviam. As crianças tinham confiança neles. Foram soltar pipa. Eles foram atraídos para esse imóvel (de um dos adolescentes) porque eles passaram e falaram: ‘vamos soltar pipa? Ah, entra aqui que tem uma linha’”, afirmou a delegada Janaína da Silva Dziadowczyk, responsável pela investigação.
“Um dos adolescentes falou que inicialmente era uma brincadeira que acabou escalando. Mas a iniciativa de gravar os vídeos foi do maior. Foi ele que começou as brincadeiras, segundo eles. E ele começou a gravar no celular dele. E depois ele pediu para que outro menor gravasse”.
Irmã denunciou o caso
A irmã adulta de uma das crianças vítima do estupro coletivo em 21 de abril foi responsável por denunciar o caso à Polícia Civil. Ela não mora mais com a família, nem na comunidade de União de Vila Nova, bairro na Subprefeitura de São Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista.
Ela descobriu o episódio ao identificar o irmão nos vídeos do abuso que circulam nas redes sociais e procurou as autoridades no dia 24 de abril.
Familiares foram pressionados para não denunciar
Delegada responsável pelo caso, Janaína da Silva Dziadowczyk afirma que a família foi pressionada pela comunidade a não denunciar. “Eles queriam resolver entre eles e não queriam que a polícia tomasse conhecimento”, disse.
As informações foram divulgadas em coletiva de imprensa neste domingo (3), no 63º Distrito Policial, da Vila Jacuí, próximo ao local onde ocorreu o crime.
“Quando a irmã viu o vídeo, identificou o irmão e registrou o boletim de ocorrência. Mas ela não tinha detalhes, não sabia o local. A família estava com medo. Todos saíram de lá. Teve gente que saiu com a roupa do corpo e deixou o imóvel sem nada lá. Foi uma dificuldade localizar essas vítimas.”
A denúncia foi feita pela irmã do menino de 10 anos, cuja mãe é dependente química e não há outro responsável por sua guarda.
“A família, por receio, não teve coragem de denunciar. O conselho tutelar e a polícia só tomaram conhecimento em 24 de abril”, afirmou o subprefeito Divaldo Rosa, em vídeo publicado nas redes sociais. Ele só se pronunciou sobre o caso na quinta-feira (30).
Vítimas recebem acolhimento
A vítima foi encaminhada ao Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes, da Prefeitura, com dois irmãos menores de idade, após o Conselho Tutelar verificar que não havia condições de continuarem com a mãe.
O outro menino, de 7 anos, está com a mãe na Vila Reencontro, moradia temporária da prefeitura para pessoas em situação de vulnerabilidade.
As vítimas estão sendo acompanhadas pelo Conselho Tutelar de São Miguel Paulista, por assistentes sociais e profissionais de saúde e pelo Projeto Bem-Me-Quer, programa de acolhimento do governo estadual a vítimas de violência sexual.
“As crianças estão, na medida do possível, bem. Eles não entendem muito bem o que aconteceu”, disse a delegada.
Envolvidos admitiram crime
“Os adolescentes admitiram o crime. Todos contaram como aconteceu. E, o maior lá na Bahia, segundo informações, teria admitido também”, afirma Janaína.
Além de estupro coletivo de vulneráveis, Martins também deve ser indiciado por corrupção de menores (os quatro adolescentes infratores) e divulgação de imagem de menores (as duas vítimas).
‘Cena terrível’
O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves, disse, no domingo (3), que, em mais de quatro décadas atuando nas forças de segurança do Estado, não tinha se deparado com algo tão terrível quanto o caso do estupro coletivo.
“Em 45 anos de polícia, não consegui ver o vídeo até o fim. Cena terrível, inesquecível, vai ficar no meu subconsciente por muito tempo”, lamentou.
A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos adolescentes, nem do foragido. Procurou o Ministério Público e a Defensoria Pública, mas não teve retorno.
