“Café da Baiana” transforma história de superação em referência de empreendedorismo feminino em Boa Vista


Por Jânio Tavares

O Café da Baiana, há 16 anos em funcionamento em Boa Vista, é hoje um dos pontos mais conhecidos da cidade quando o assunto é café da manhã. À frente do negócio está Anelita Alves Pinheiro, 71 anos, que saiu de um início sem estrutura, com apenas R$ 200, para transformar o empreendimento em referência local e fonte de renda para outras famílias.

Natural de Iguaí, na Bahia, Baiana construiu uma trajetória que representa o empreendedorismo feminino baseado na necessidade, mas sustentado pela persistência.

A sua história de sucesso começou sem planejamento formal, sem acesso a crédito ou capacitação. Ao chegar a Roraima com dois filhos e poucos recursos, precisou encontrar uma forma de recomeçar. “Quando eu cheguei aqui, eu não tinha experiência com comércio e nem dinheiro. Mas eu tinha responsabilidade com meus filhos e muita vontade de trabalhar. Eu sabia que não podia ficar esperando ajuda ou oportunidade cair do céu. Eu precisava fazer alguma coisa, mesmo sem saber direito como começar”, relembra.

Produtos oferecidos no Café da Baiana, que atraem clientes diariamente pela qualidade e tradição (Foto: Janio Tavares)

A trajetória de Baiana reflete um cenário mais amplo. Segundo o Sebrae, mais de 10 milhões de mulheres empreendem no Brasil, muitas delas por necessidade e em condições de vulnerabilidade.

Sem formação além do ensino fundamental incompleto, ela aprendeu na prática. Observando o movimento de uma panificadora onde o irmão trabalhava, começou a entender o funcionamento do comércio. “Eu ficava ali, olhando o movimento, prestando atenção no que as pessoas compravam, como era o atendimento. Um dia vi uma mulher vendendo café debaixo de uma árvore, e aquilo me chamou atenção. Eu pensei: se ela consegue, eu também posso tentar. Não foi fácil decidir, mas eu sabia que precisava começar de algum jeito”, conta.

Com poucos recursos, iniciou de forma improvisada, vendendo café da manhã em uma esquina do bairro São Vicente, com uma estrutura simples: mesa, garrafas de café e um isopor com alimentos básicos.

Preconceito, trabalho e resistência

O início simples não significou um caminho fácil. Além das dificuldades financeiras, Baiana enfrentou preconceito por ser mulher, nordestina e integrante da comunidade LGBTQIAPN+, fatores que marcaram sua trajetória no empreendedorismo. “Teve muito preconceito, sim. Teve gente que não acreditava, que não respeitava, que olhava diferente pra mim. Já passei por situações de humilhação e desvalorização. Mas eu nunca deixei isso me parar. Pelo contrário, isso me deu mais força pra continuar trabalhando e mostrar que eu era capaz”, afirma.

Dados do Sebrae mostram que mulheres ainda enfrentam mais dificuldades no acesso a crédito, formalização e crescimento dos negócios, além da sobrecarga de funções.

Para garantir renda, Baiana encarou uma rotina intensa e diversificou as atividades. “Eu fazia o que aparecesse. Já vendi pão caseiro, já trabalhei na rua, já levei meu filho pequeno comigo porque não tinha com quem deixar. Nunca tive vergonha de trabalhar. Sempre pensei que era melhor lutar do que depender dos outros”, destaca.

À noite, aproveitava o movimento de casas de shows próximas para vender café e caldo, ampliando a renda. Foi também nesse período que enfrentou um dos momentos mais difíceis da trajetória: a perda do ponto comercial após confiar em um parceiro. “Eu confiei em uma pessoa para trabalhar comigo e acabei perdendo tudo. O contrato ficou no nome dele, e eu não consegui reverter a situação. Foi muito difícil, porque eu já tinha conquistado meu espaço. Mas ali eu entendi que precisava ter mais cuidado e que teria que começar de novo”, relata.

Consolidação, geração de renda e impacto social

Equipe do Café da Baiana, que hoje conta com cerca de 10 colaboradores atuando no atendimento ao público (Foto: Jânio Tavares)

O recomeço veio com a oportunidade de adquirir um ponto no Mercado Municipal Sabá Floresta, mesmo sem ter o valor total disponível. “Eu não tinha todo o dinheiro, mas tive coragem. Dei uma entrada e parcelei o restante. Pensei muito antes, mas sabia que era uma oportunidade que eu não podia deixar passar. Foi ali que o meu negócio começou a crescer de verdade”, afirma.

A partir desse momento, o Café da Baiana se consolidou como referência em Boa Vista. O espaço passou a oferecer uma variedade de produtos, como pão de queijo, sanduíches, bolos, sucos, café e salgados, ampliando o atendimento e atraindo clientes diariamente.

Hoje, além de garantir estabilidade financeira, o negócio também gera impacto econômico direto. O Café da Baiana conta com cerca de 10 colaboradores, contribuindo para a renda de diversas famílias.

Além do próprio crescimento, Baiana também se dedica a ajudar outras pessoas a empreender. Um dos exemplos é o apoio a um homem do interior do estado que enfrenta problemas de saúde. “Eu sempre penso que, se eu consegui, outras pessoas também podem conseguir. Teve um senhor que estava passando por dificuldade, com problema de saúde, e eu o ajudei a montar um pequeno comércio pra ele se manter. Eu sei o quanto é difícil começar, então quando posso, eu ajudo”, relata.

Mãe de três filhos — sendo dois adotivos — ela destaca a educação deles como uma das maiores conquistas. “Tudo que eu fiz foi pelos meus filhos. Hoje, ver eles bem, estudando, seguindo o caminho deles, é a maior recompensa que eu poderia ter. Eu não tive oportunidade de estudar, mas fiz questão de dar isso pra eles”, diz.

A trajetória de Baiana evidencia o papel do empreendedorismo feminino como ferramenta de transformação social e econômica. “Eu aprendi tudo trabalhando, errando, tentando de novo, sem desistir. Se tem uma coisa que eu posso dizer é que a pessoa precisa acreditar nela mesma e não ter medo de começar pequeno. Porque foi assim que eu iniciei”, conclui.

Hoje, o movimento constante no Café da Baiana não revela apenas um negócio consolidado, mas a construção de uma história marcada por trabalho, persistência e transformação de vida.

O Café da Baiana está localizado na avenida Castelo Branco, nº 1847, bairro São Vicente, box 16, com atendimento diário ao público, das 5h30 às 11h, e contato pelo telefone (95) 99130-9593.

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