A inteligência artificial está reconfigurando o mercado de trabalho brasileiro, atingindo cerca de 30 milhões de ocupações. Segundo estudo do FGV IBRE, divulgado nesta terça-feira (28), 5 milhões de trabalhadores já enfrentam o nível mais elevado de incidência da tecnologia em suas tarefas diárias.
Os setores de serviços financeiros (90,4%) e de informação e comunicação (80,8%) lideram o ranking de exposição à inteligência artificial. Em contrapartida, áreas como agropecuária e construção civil apresentam os menores índices de impacto, com 1,5% e 4%, respectivamente.
A pesquisadora Janaína Feijó, da FGV, explica que a exposição não significa necessariamente demissão, mas sim potencial de automação. Trabalhadores com maior escolaridade tendem a utilizar a ferramenta para aumentar a produtividade, enquanto ocupações informais e de baixa renda enfrentam maiores riscos de obsolescência.
O levantamento aponta que as mulheres são as mais afetadas pela inteligência artificial, com 35,4% de exposição, contra 25% entre os homens. Isso ocorre devido à concentração feminina em setores de comércio e serviços, que possuem maior volume de tarefas repetitivas e passíveis de substituição digital.
Entre os jovens de 14 a 29 anos, a taxa de exposição chega a 35,9%. Por estarem em início de carreira, esses profissionais costumam desempenhar funções operacionais que exigem menos habilidades socioemocionais. Especialistas sugerem que a adaptação exigirá constante requalificação e foco em competências humanas.
A cientista da computação Nina da Hora ressalta que o debate sobre habilidades para a inteligência artificial esbarra no analfabetismo funcional no Brasil. Para ela, o “pensamento analítico” e o “senso crítico” são fundamentais, mas dependem de uma base educacional que ainda é precária para boa parte da força de trabalho.
Anderson Soares, da UFG, destaca que saber questionar e corrigir os sistemas de IA é uma habilidade digital essencial. Como a tecnologia tende ao “viés de confirmação”, o julgamento humano torna-se o diferencial competitivo. O país precisa agora alinhar políticas industriais para deixar de ser apenas consumidor de dados.



