Antes de ser reconhecida por lei e incorporada em escolas e serviços públicos, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) começou a ganhar espaço no Acre a partir de iniciativas ainda pouco estruturadas, mas decisivas para a inclusão. No Dia Nacional da Libras, celebrado nesta sexta-feira, 24, histórias de quem participou desse início ajudam a entender como a comunicação com a comunidade surda foi construída no estado.
A trajetória passa por ações iniciadas na década de 1990, quando o acesso à Libras era limitado e a maioria das famílias não dominava a língua. Foi nesse cenário que surgiram os primeiros movimentos locais de ensino e convivência, muitos deles ligados à atuação voluntária.
A GAZETA ouviu duas dessas pioneiras: a advogada Jaqueline Albuquerque e a pastora Valéria Marques, da Igreja Batista do Bosque, que participaram da difusão da Libras no Acre.

Como tudo começou
O ponto de partida foi em 1995, a partir de uma iniciativa dentro da igreja, que buscava melhorar a comunicação com pessoas surdas durante os cultos.
“Eu estava chegando na Igreja Batista do Bosque em 1995 e aí um rapaz teve a ideia de ir para Campinas fazer o curso de Libras e começar a interpretação nos cultos. E como eu estava afim dele, aí eu fui também. Foi assim que começou”, relata Jaqueline.
A formação fora do estado abriu caminho para a aplicação prática da Libras em Rio Branco, ainda de forma incipiente.
Encontros e primeiros avanços
Após o curso, começaram encontros semanais aos sábados com pessoas surdas, voltados não só à comunicação, mas também à convivência e troca de experiências.
Na época, segundo as entrevistadas, a realidade era de pouca inclusão e escassez de recursos.
“Muitas famílias não sabiam Libras, o que dificultava a comunicação dentro de casa”, lembram.
Diante disso, as ações passaram a incluir também orientação familiar, ampliando o impacto para além dos espaços coletivos.
Parcerias e expansão do ensino
Com o crescimento da demanda, foi estabelecida uma parceria com a Secretaria de Educação para ampliar os cursos e formar novos intérpretes.
“Mesmo existindo uma escola no Acre para pessoas surdas, a Libras não era usada; o ensino focava só na fala. Diante disso, ampliamos os cursos, formando intérpretes e ensinando professores, ajudando a tornar o ensino mais acessível”, relatam.
A iniciativa contribuiu para a profissionalização da área e para a inclusão gradual da Libras no ambiente educacional.
Aprendizado na prática
Apesar dos cursos, o domínio da língua veio, principalmente, da convivência com a comunidade surda. “No começo, a gente esquecia muitos sinais. Foi convivendo com a comunidade surda que realmente aprendemos Libras. O curso ajuda no básico, mas não é suficiente”, afirma Jaqueline.
Além dos encontros, as visitas às famílias se tornaram parte importante do processo. “Em muitas casas, os familiares não sabiam Libras. Começamos a orientar e conscientizar essas famílias sobre a importância da língua”, explica a pastora Valéria.
Com o passar do tempo, a presença da Libras se ampliou no Acre, acompanhando o reconhecimento oficial da língua no Brasil, em 2002.
Hoje, segundo as pioneiras, é possível observar avanços na inserção social e profissional da comunidade surda. “Muitos surdos se tornaram professores e profissionais reconhecidos. Muitos começaram a aprender Libras em cursos na igreja e hoje atuam como intérpretes e educadores”, destaca Jaqueline.
A importância da comunicação
Mesmo com avanços, o contato cotidiano ainda é apontado como essencial para a inclusão. “Saber Libras, mesmo que básico, pode transformar o dia de uma pessoa surda. Um simples cumprimento já faz diferença. A comunicação vai além das mãos, envolve expressões e o corpo inteiro”, concluem.
No Acre, a história da Libras mostra que a inclusão começou com iniciativas locais e foi se consolidando ao longo dos anos, acompanhando mudanças sociais, educacionais e legais que ampliaram o acesso à comunicação para a comunidade surda.