Um diálogo extemporâneo – Folha BV



Sebastião Pereira do Nascimento*

Num mundo de muitos desencontros, idealizei um encontro que posso chamar de metafísico entre dois notórios pensadores universais: Cláudio Ptolomeu e Nicolau Copérnico. O encontro, tratado como uma síntese criativa, se passa numa época em que a igreja ainda controlava a teoria do geocentrismo, apregoada por Aristóteles e, mais tarde, sistematizada por Ptolomeu. No sentido oposto, Copérnico defendia suas acepções relativas ao heliocentrismo, cujas implicações desafiavam a visão de mundo geocêntrica, apoiada pela Igreja.

Embora vividos em épocas distintas, simulei um encontro extemporâneo entre os dois pensadores – no melhor estilo de uma viagem ao tempo – levado pelo vislumbre de vê-los, posto que antagônicos, atrelados a um entusiástico debate. Diante do conhecimento inteligível de ambos — ligados à igreja católica —, algumas ideias ficaram conhecidas como prenúncias universais, outras como precursoras de antíteses ou ainda como provocadoras de contradições, solucionadas pela consistência argumentativas de cada pensador.

Deste modo, reproduzindo um cenário bucólico e medieval, projetei um diálogo, dispondo os dois pensadores frente a frente, sentados à mesa repleta de antepastos, manjares e vinhos. Após celebrar a calorosa saudação com muitas canecas de vinho e ironias mútuas, Ptolomeu inicia o diálogo:

— Copérnico, o que tu achas das minhas ideias sobre o geocentrismo? — Sem menor cerimônia, Ptolomeu fez a pergunta, acenandocomo se fosse algo irrefutável.

— Acho uma afirmação sem valor — responde Copérnico sem muito entusiasmo.

— Como sem valor? — retruca Ptolomeu, um tanto abismado.

— Para ser sincero, Ptolomeu, eu entendo que a Terra é um planeta que gira em torno do sol, assim como os demais planetas que compõem o nosso sistema estelar — calmamente, Copérnico fala enquanto esvazia mais uma caneca de vinho.

— Ah… então tu és apreciador do heliocentrismo? É mais um daqueles insensatos que insistem em dizer que a Terra não é o centro do universo? — esboçou Ptolomeu com uma expressão irônica.

— Sim! A partir das minhas observações, entendi que a Terra é apenas mais um desses planetas que constituem o nosso universo — diz Copérnico, convicto de suas ideias.

Com um gesto desconfiado, Ptolomeu retruca: — Mas, espera! Então, tu estás se opondo ao teu próprio Deus? Se é que tu és mesmo cristão… ou eu estou enganado, Copérnico?

— Seja como for, Ptolomeu, tu estás profundamente equivocado. Embora eu seja um eclesiástico, assim como tu, posso ter as minhas próprias convicções e os meus entendimentos, mormente diante desse imenso universo em que nós vivemos — Copérnico responde compenetrado.

— Então… — Ptolomeu tenta argumentar, mas Copérnico o interrompe.

— Data vênia, vou resumir aqui minha real opinião sobre o heliocentrismo — entusiasmado Copérnico, trata de explicar o assunto — Pois bem, o heliocentrismo é um entendimento teórico que diz respeito ao sistema cosmológico onde, de acordo com as minhas observações planetárias, entendo que a Terra, assim como outros corpos celestes, gira em torno do sol, ao contrário do que preconiza o modelo geocêntrico presumido por Aristóteles e reorganizado agora por vossa senhoria…

Ptolomeu interrompe ressaltando:

— Saiba que o geocentrismo não é um pressuposto, é um modelo cosmológico explicado a partir de consistentes estudos pelos quais considero a Terra como o centro do universo, onde o sol e todos os planetas giram em torno dela, e que, aliás, partindo dessa premissa, também considero de forma definitiva que esse universo sempre foi e será finito.

Com tantas abstrações e o sistema de Ptolomeu cada vez mais complexo, Copérnico observava tacitamente com o cenho franzido. Mas logo sua mente contrapunha ao velho mestre.

— Tu estás intensamenteequivocado, Ptolomeu… ao contrário de tuas intenções, quanto mais aprimoro a matemática dos céus, mais que o sol, e não a Terra, é o centro celeste. Isso preconiza que o universo é uma esfera vasta e incomensurável… algo bem maior do que nossa própria imaginação.

— Então, com esse argumento, tu queres dizer que o universo não é um sistema ordenado por esferas concêntricas cuja Terra está no centro? — Ptolomeu retruca em lúcido estado de hesitação.

— Perfeitamente… — retoma afirmativamente Copérnico — o universo é algo que vai além de nossa compreensão. Eu deduzi, a partir de inúmeros cálculos matemáticos, que a Terra gira uma volta completa ao redor de seu próprio eixo e que isso explicaria a razão dos dias e das noites, assim como o movimento do sol e de muitas outras estrelas presentes no universo. E se tu quiseres melhores entendimentos do que estou falando, isso tudo está argumentado minuciosamente na minha obra “De revolutionibus orbium coelestium” que fala das hipóteses sobre os movimentos celestes.

— Meu caro Copérnico, vejo que estás te tornando um verdadeiro herege, cuidado! — advertiu Ptolomeu — Isso pode ser perigoso. Com essas ideias, tornar-te-ás um potencial candidato ao fogo da inquisição, basta uma denúncia aos teus superiores e tu verás o peso da santa igreja… com essas blasfêmias, tu podes ser queimado vivo, além de ter tua alma entregue ao diabo… muito cuidado, meu caro amigo…

Copérnico, que atenciosamente ouvia, fez menções de riso e, com gesto cortês, levantou a caneca de vinho e disse:

— Calma, Ptolomeu, hás de convir que meus comentários são apenas hipotéticos e, como hipóteses, minhas observações não podem ser definidas como heresias e blasfêmias. O heliocentrismo é simplesmente um modelo de organização do espaço universal idealizado a partir dos princípios da mecânica do movimento. Portanto, isso não se comporta como uma heresia…

— Como não! — diz Ptolomeu, agora mais sereno após entornar mais uma caneca de vinho — Se tu fazes argumentações contrárias à visão da igreja? Tu sabes muito bem que o sistema geocêntrico é o modelo mais plausível a suportar o ego humano, pois coloca a Terra no centro de todo o universo. Trata-se, portanto, de um modelo alinhado com passagens bíblicas e consolidado pela tradição escolástica, pois condensa a relação histórica entre o geocentrismo e dogma cristão. Tanto é que a Santa Igreja vem sustentando tal modelo há mais de mil e quatrocentos anos.

— Ptolomeu — disse Copérnico —, essa tua representação de uma Terra disposta em matéria fixa, construída e já acabada desde sua formação, apesar de ser apenas uma idealização do teu firmamento, me parece algo imaturo e esdrúxulo.

— Não creio que seja esdrúxulo esse meu entendimento — disse Ptolomeu de maneira mais provocante —, saiba que isso não é apenas uma especulação da cosmogênese, e sim uma convicção racional baseada naquilo que os antigos sábios constituíram como os quatro elementos fundamentais: terra, água, fogo e ar. Logo, esses elementos teriam a tendência natural de se agrupar, formando quatro diferentes esferas, onde a esfera de terra seria o nosso planeta, a esfera de água seria os mares, a esfera de ar seria a nossa atmosfera e, por fim, a esfera de fogo seria o sol. Em resumo, isso coincide com o que Aristóteles apregoou claramente, de que a Terra é uma esfera e estaria fixa no centro do universo e que todas as outras esferas cósmicas giram ao redor dela. A partir dessas afirmações, especialmente baseadas nos meus estudos, eu reforcei a tese de que a Terra é mesmo um fragmento celeste imóvel que se encontra no centro do universo.

— Eu já assimilei ao contrário — responde Copérnico, com um ar mais sorridente —, vejo que a Terra é uma matéria constituída de partículas e de energia em incessante movimento e transformações. O Homo sapiens, assim como os outros seres vivos, surgiu em consequência dessas dinâmicas e interações entre esse ambiente material e as partículas orgânicas mais elementares…

De maneira interrogativa, Ptolomeu interpela, dizendo:

— Mas Copérnico, seja flexível e me diga o que o leva tu a fazer essas contestações sobre o entendimento geocêntrico, ou seja, a se opor a uma coisa que há tanto tempo permanece assim como Deus criou… sem alterações cósmicas ou sem mudanças no estado atual das coisas?

Copérnico, baixando a caneca de vinho e se mostrando mais paciente, esclarece:

— Ptolomeu, eu entendo que nada está permanentemente fixo no cosmo. Trata-se de um espaço universal totalmente constituído de fluxos e conversões de energia, o que implica movimentos e transformações de forma e de estrutura, embora nós mesmos ainda não percebamos o quanto do cosmo se modifica ao longo do tempo.

— Então tu não percebes o fato de o sol nascer e se pôr; o movimento das estrelas durante a noite e os eclipses lunares e solares… a meu ver, tudo isso são observações bastante plausíveis de que as coisas realmente se movem em torno da Terra, tu não achas? — Ptolomeu interroga, levantando mais uma caneca de vinho.

— Sim, parecem… — disse Copérnico, se mostrando bastante seguro do seu ponto de vista — todavia, o universo sofreu e continua sofrendo inúmeras mudanças a partir de um fluxo cosmológico interminável. Tu imaginas como era tudo isso no princípio das coisas? Há pelo menos 14 bilhões de anos,as galáxias nada mais eram do que apenas nuvens de gases… estima-se que no universo constam mais de 100 bilhões de galáxias, e cada galáxia tem cerca de 100 bilhões de estrelas, e o sol é apenas uma das estrelas que compõem uma dessas galáxias, formando o sistema solar, o qual surgiu acerca de 4,6 bilhões de anos, a contar da compactação da nebulosa existente na via láctea. Só depois do sol, então, surgiu a Terra com cerca de 4,5 bilhões de anos, ou seja, considerando todo esse tempo, quando a Terra surge, o universo já tinha mais de 9 bilhões de anos. Assim, entendo que o sol é um corpo central e que a Terra é apenas mais um planeta que conclui uma órbita em torno dele todo ano e que gira em torno de seu próprio eixo todo dia…

Ptolomeu, de forma serena, antecede os seguintes questionamentos:

— O que tu fazes para estar certo de tudo isso? E como tu chegaste a essas afirmações?

— Uma das minhas principais observações — Copérnico responde de maneira incisiva —, a qual consta nos meus alfarrábios, se baseia em observações meticulosas na mudança de posição do eixo rotacional da Terra, o qual não é um fator perpendicular ao plano de sua órbita. Todavia, isso só foi possível em função das observações feitas sobre os equinócios, que são definidos no instante em que o sol cruza o plano do equador, ou seja, mais precisamente, é o ponto em que a eclíptica intercepta o equador celeste…

— Caro senhor dos equinócios, no meu entender — ironiza Ptolomeu, um tanto descompensado — tudo isso que estás confabulando para mim não passa de uma vã elucubração mental, mormente quando te referes ao eixo rotacional da Terra…

Copérnico atalhando o criador do “Almagesto”, diz:

— A Terra não é um objeto paralisado no espaço como tu vislumbras, Ptolomeu… a Terra gira! Ela funciona como um sistema dinâmico, não como uma pedra fixa… a Terra sofre contínuas modificações internas e externas, tal como cada um de nós e todos os outros seres existentes no planeta.

— Copérnico, escuta aqui… — utilizando o senso comum da física aristotélica, Ptolomeu, bebendo mais uma caneca de vinho, inquire seu interlocutor — será que não pensas que existe uma Terra estática no centro do universo, igualmente como tu vês o sistema solar? Pois não percebes que, se a Terra se movesse da forma que tu pensas, tanto as nuvens como os pássaros voando ou mesmo qualquer objeto em queda livre seriam deixados para trás?…

— Claro que não! — de maneira pragmática, Copérnico intercepta o seu interlocutor — Quero que tu entendas uma coisa, Ptolomeu… se um objeto pesado fosse abandonado do alto do mastro de um navio, uma pessoa a bordo sempre não o veria cair em linha reta, na vertical? Então! Baseado nisso, nunca poderia dizer a mesma coisa caso a embarcação se movesse. Porém, uma pessoa situada na margem da água veria o objeto descrever uma curva descendente. Porque, enquanto cai, ele acompanha o deslocamento horizontal do navio. Todavia, tanto uma pessoa quanto a outra constatariam que o objeto chega ao convés exatamente no mesmo lugar, no pé do mastro. Pois ele não é deixado para trás quando o navio se desloca. Assim, é exatamente como se comporta qualquer objeto suspenso, em movimento ou não, no horizonte espacial da Terra.

— De certo modo, tudo isso não passa de um contrassenso aos meus ouvidos, Copérnico… — disse Ptolomeu, insatisfeito com as premissas de seu colega — o que eu percebo é que tudo isso tem sentido apenas para outras unidades celestiais que se manifestam ao redor da Terra, sob o comando de um pequeno círculo, o qual eu chamo de epiciclo. Desse modo, cada planeta tem um epiciclo próprio, e o centro de cada epiciclo se move em um ciclo maior, o qual fica sempre afastado da Terra.

De forma conciliadora e perseverante, sorvendo mais uma caneca de vinho, Copérnico, compenetrado, conclui o debate:

— Na realidade, Ptolomeu, tu sabes que essa ideia heliocêntrica já existia na antiguidade com Aristarco de Samos, mas rejeitada em favor das tuas ideias que levava a acreditar que a Terra era fixa. No entanto, apesar dessa tradição geocêntrica que estabeleceste e a resistência dogmática da igreja sobre as minhas ideias, eu te afirmo: antes de perder a intensidade da vida, divulgarei minha teoria. Provarei que o heliocentrismo é a verdadeira estrutura do nosso sistema planetário, inclusive utilizando teus próprios mecanismos geométricos para simplificar o sistema e mover a Terra sob a ordem solar… pois o Sol é o centro, e isso é o fundamento de tudo o que percebemos no universo.

*Filósofo, escritor e consultor ambiental. Membro editorial da revista “Biologia Geral e Experimental”. Autor dos livros “Cem contos miúdos” e “À sombra do caimbé” (no prelo).



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