CENÁRIO
A eventual confirmação das pré-candidaturas ao Senado por Rondônia, nas convenções partidárias, desenha um quadro fragmentado, competitivo e fortemente influenciado pela polarização nacional – ainda que com dinâmicas próprias do eleitorado rondoniense, historicamente avesso à soberba e sensível a discursos de identificação direta. Senão vejamos:
FERNANDO MÁXIMO (PL)
Campeão de votos na eleição passada e líder momentâneo nas sondagens, Fernando Máximo entra na pré-campanha sob o risco clássico do “já ganhou”. Trata-se de um comportamento que, em outras disputas no estado, mostrou-se fatal. A antecipação da vitória costuma produzir efeitos colaterais conhecidos: excesso de confiança, distanciamento do eleitor e uma percepção de arrogância que o rondoniense tende a punir nas urnas.
EXEMPLOS
O histórico político rondoniense é pródigo em exemplos de líderes precoces que sucumbiram na reta final exatamente por essa desconexão. Máximo, ao que tudo indica, flerta com esse mesmo roteiro.
POSTURA
A vaidade inflada por pesquisas ainda distantes do pleito (seis meses) pode cegá-lo estrategicamente. Se não recalibrar discurso e postura, corre o risco de transformar vantagem inicial em vulnerabilidade. Chagas Neto, Amir Lando, Odacir Soares, Valdir Raupp, Expedito Junior, Moreira Mendes e, por último, Mariana Carvalho, lideraram até as últimas pesquisas divulgadas, com as urnas abertas, levaram sova. Se Máximo não cuidar repete a mesma sina e salva apenas o gorro que leva na cabeça como indumentária eleitoral.
BRUNO SCHEID (PL)
Bruno Scheid aparece como um nome em ascensão relativa, embora ainda pouco conhecido do grande eleitorado. Sem experiência eleitoral e com presença ainda incipiente nas mídias tradicionais e digitais, sua comunicação carece de maturidade política. Suas peças nas mídias digitais, do ponto de vista eleitoral, não convence nem quem as produziu.
MONOCÓRDIO
O discurso é fortemente ancorado em pautas ideológicas nacionais, especialmente a defesa da anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Trata-se de uma narrativa monocórdica, com baixa conexão direta com demandas regionais de Rondônia. Rondônia, que é a unidade federativa que se propõe a representar no Senado, aparece de forma lateral. E quando lembram colocar.
AJUSTE
Ainda assim, Scheid não deve ser subestimado. Existe uma parcela consistente do eleitorado estadual que responde positivamente a esse tipo de discurso, sobretudo em um ambiente polarizado e majoritariamente conservador. Caso consiga ajustar minimamente sua comunicação e incorporar temas locais, pode crescer. Se vier a ser moldado diretamente por uma estratégia nacional bolsonarista, tende a ganhar competitividade.
MARIANA CARVALHO
Carregando a conhecida pecha de “cavalo paraguaio”, Mariana Carvalho entra na disputa tentando reverter um histórico de desempenho irregular. Diferentemente de eleições anteriores, desta vez enfrenta um ambiente mais hostil aos políticos tradicionais, o que pode paradoxalmente favorecer uma reinvenção de sua imagem.
EQUILÍBRIO
Há sinais de aprendizado após sucessivas derrotas. A tendência é de uma campanha mais leve, menos baseada em estruturas de poder e mais focada em conexão com o eleitor. Inserida em um grupo político experiente, pode se beneficiar de uma estratégia mais equilibrada.
IMAGEM
O principal desafio da filha de Aparício Carvalho está na comunicação: ajustar tom, postura e percepção pública – inclusive aspectos como a forma de se expressar que é excessivamente infantilizado – para evitar ruídos que comprometam sua imagem de liderança. Se mantiver consistência e humildade, tem espaço real de crescimento.
LUÍS FERNANDO (PSD)
Ex-secretário de Finanças do estado, Luís Fernando representa o perfil técnico em uma disputa dominada por políticos profissionais. Sem experiência eleitoral, inicia a corrida com baixa notoriedade junto ao eleitorado, o que é simultaneamente um obstáculo e uma oportunidade. Por um lado, a ausência de histórico em urnas pesa. Por outro, sua trajetória administrativa – marcada por um perfil técnico que elevou Rondônia a um percentual sólido do pleno emprego e pagamento em dia do funcionalismo – pode gerar identificação com eleitores preocupados com gestão e resultados concretos.
COLA
Como seu discurso tende a focar em economia, emprego e desenvolvimento, temas relevantes, mas que nem sempre mobilizam emocionalmente o eleitor. A estratégia de colar sua imagem a uma candidatura majoritária competitiva, como a de Adailton Fúria ao governo, pode ser decisiva para ganhar impulso. É um cara carismático, didático nos temas que aborda e de uma vida funcional impecável. É uma candidatura a ser observada até porque surgiu por iniciativa do próprio ex-chefe, o governador Marcos Rocha. Falta-lhe traquejo político e sobra-lhe uma boa lábia em política é um bom começo.
Assis Gurgacz (PDT)
O ex-senador Acir Gurgacz surge como o nome mais visível do campo progressista, embora sua candidatura ainda deva ser escrutinada pela Justiça Eleitoral, é um nome forte entre os apoiadores de Lula. Após período de inelegibilidade, retorna sob contestação, o que deve marcar toda a fase pré-eleitoral. Mas tem apresentado uma certidão que alega estar quites com as obrigações eleitorais e apto para as eleições.
PREFERÊNCIA
De perfil reservado e personalidade firme, não é conhecido pela proximidade com o eleitor que gosta de pegar a mão do candidato. Ainda assim, seu desempenho anterior no Senado não é considerado irrelevante, o que lhe garante algum capital político. Em um cenário de polarização, pode se beneficiar de um eventual voto útil da esquerda, mesmo entre eleitores que não o têm como primeira opção.
RENÚNCIA
Caso o senador Confúcio Moura (MDB) decida não disputar a reeleição, conforme revelou a coluna, Gurgacz também poderá ser favorecido com parte do eleitorado de centro e de direita não alinhados aos extremismos, que ficarão órfãos com a desistência do senador emedebista.
LUCIANA OLIVEIRA (PT)
Esta representa o segmento mais ideológico da disputa. Jornalista, com forte presença digital e preparo intelectual reconhecido, construiu trajetória na militância social. Seu posicionamento é claro e pouco flexível, especialmente em pautas progressistas que confrontam o conservadorismo predominante no estado.
TERMÔMETRO
Essa coerência da pré-candidata petista pode ser virtude ou limitação eleitoral. Não se apresenta como candidata de conciliação, mas de enfrentamento – o que tende a mobilizar nichos específicos. Sua candidatura também funciona como termômetro da capacidade de expansão da esquerda em um ambiente historicamente adverso.
NEIDINHA SURUY (PSB)
Neidinha, por sua vez, combina uma imagem serena com atuação firme em pautas socioambientais e indígenas. Apesar da postura tranquila, é reconhecida também nos fóruns nacionais e internacionais por posicionamentos contundentes quando necessário.
DESAFIO
Sua presença na disputa adiciona diversidade ao debate, especialmente em temas ligados à Amazônia e aos povos originários. O desafio será transformar reconhecimento em votos, ampliando sua visibilidade para além de nichos específicos. Especialmente num estado forte no Agronegócio e mais forte ainda na intolerância contra tudo relativo ao Meio Ambiente e Populações Originárias.
Nilton Oliveira (PSDB)
Vereador da capital e policial penal, Nilton Oliveira se apresenta como uma candidatura de perfil conciliador em um ambiente dominado pela polarização. Afirma não se alinhar nem à esquerda nem à direita, posicionando-se como alternativa centrada no debate dos interesses diretos de Rondônia.
DESCONFIANÇA
Há, contudo, desconfianças no meio político quanto à consistência de sua pré-candidatura – vista por alguns como estratégia para viabilizar espaço em nominatas proporcionais. Ele rejeita essa leitura e sustenta que está na disputa para vencer.
MODERAÇÃO
Sua aposta reside justamente no discurso de moderação, algo que pode tanto atrair eleitores cansados do embate ideológico quanto esbarrar na realidade de um eleitorado que, em grande medida, ainda responde à lógica da polarização. Sua viabilidade dependerá da capacidade de transformar o discurso conciliador em identificação concreta com o eleitor.
SÍLVIA CRISTINA (UB)
A deputada federal Sílvia Cristina foi uma das primeiras a se lançar na disputa, o que demonstra planejamento e intenção clara de protagonismo. Com atuação destacada na área da saúde, construiu uma base eleitoral transversal, sendo bem avaliada por diferentes espectros ideológicos.
ALVO
É reconhecida como uma parlamentar operosa, com presença efetiva nos municípios e entrega de resultados – um ativo importante em campanhas majoritárias. Ao mesmo tempo, sua atuação consistente a tornou alvo de ataques pessoais nas redes sociais, prática recorrente contra figuras com maior visibilidade.
FRAGILIDADE
Embora se declare conservadora, posiciona-se em um campo que, em Rondônia, por vezes confunde conservadorismo com posturas mais liberais – o que pode gerar ruídos, inclusive entre eleitores que, em tese, estariam no mesmo espectro ideológico. Ainda assim, sua capacidade de trabalho e capital político acumulado a colocam como uma das candidaturas mais estruturadas da disputa. Uma consistência frágil que necessita confirmar a fidelização ao longo da campanha.
SÍNTESE
Com a inclusão desses nomes, o quadro eleitoral ao Senado em Rondônia se torna ainda mais multifacetado. Há candidaturas de perfil técnico, ideológico, tradicional, emergente e conciliador – todas disputando espaço em um eleitorado exigente e volátil. A eleição tende a ser decidida menos por favoritismos iniciais e mais pela capacidade de persuasão do candidato de sustentar narrativa, evitar erros estratégicos e, sobretudo, dialogar com as demandas concretas da população. Em um ambiente de múltiplas candidaturas competitivas, a fragmentação pode abrir espaço para surpresas – especialmente para aqueles que souberem crescer no momento decisivo.
IMAGEM
A fotografia mais recente do Datafolha, divulgada pelo grupo Grupo Globo, não traz exatamente uma novidade – mas escancara um incômodo: a eleição segue menos sobre nomes e mais sobre rejeições. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 48% de rejeição, numericamente à frente de Flávio Bolsonaro, que registra 46%, ambos tecnicamente empatados dentro da margem de erro.
VISCERAL
O dado bruto, isolado, poderia sugerir equilíbrio. Mas o subtexto é mais áspero: há mais resistência consolidada ao petismo do que propriamente adesão orgânica ao bolsonarismo. A pesquisa indica que o eixo central da disputa não é essencialmente ideológico no sentido clássico – é afetivo, quase visceral.
COADJUVANTES
Analistas apontam que o pleito se organiza entre “petistas” e “antipetistas”, categoria esta que independe do candidato que esteja do outro lado. Em termos práticos, isso reduz o protagonismo de nomes como Romeu Zema ou Ronaldo Caiado: eles orbitam, mas não estruturam o conflito.
LIMITES
O problema de Lula, portanto, não é exatamente o adversário – é o teto. A rejeição elevada funciona como uma cerca elétrica eleitoral: delimita o quanto pode crescer. Para atravessá-la, será necessário reconquistar o eleitor de centro, aquele que não milita, não veste camisa e, sobretudo, não tolera repetir escolhas sem uma justificativa nova.
FADIGA
E é aí que surge o segundo ruído captado pela pesquisa: a fadiga. Há sinais de desgaste na ideia de continuidade. Não se trata de colapso de governo – os números não autorizam esse diagnóstico simplista -, mas de uma administração que, neste momento, parece oferecer mais do mesmo a um eleitor que começa a exigir muito mais.
INSTABILIDADE
Curiosamente, isso não se traduz automaticamente em força adversária. Flávio Bolsonaro aparece competitivo, mas ainda dependente de um capital político herdado e de um eleitorado que não é, necessariamente, fiel – é reativo. Seus votos, assim como os de outros nomes da direita, ainda carecem de consolidação mais estável.
REAÇÃO
No fim, a equação é menos convencional do que parece: Lula não enfrenta apenas um candidato, enfrenta a indisposição do eleitor em votar nele novamente. Ainda assim, convém lembrar o óbvio que a política insiste em desmentir: pesquisa é retrato, não roteiro. E, mesmo cercado por rejeição robusta, Lula continua sendo um operador experimentado, com eleitorado fiel e capacidade já testada de reorganizar o jogo quando a campanha sai do laboratório e entra na rua. Mesmo o PT não possuindo mais aquela verve vibrante nas ruas de eleições passadas.
GALHOFA
O deputado estadual Alan Queiroz (PL), criticado por destinar ao município de Guajará-Mirim uma emenda de R$ 450 mil para custear uma banda de forró, foi às mídias sociais, acompanhado de seus asseclas, fazer galhofa dos críticos. Bobo.
LACRAÇÃO
Ninguém tentou “lacrar” o parlamentar em razão do envio de recursos; ao contrário, é sua obrigação ajudar municípios pobres e com problemas estruturais. A crítica, na verdade, recai sobre a forma como o dinheiro público foi gasto: milhões destinados a encher os cofres de uma banda, enquanto os munícipes sofrem com a falta de apoio da municipalidade. Não se trata, tampouco, de oposição à festa, que, segundo relatos, foi excelente.
CASULO
Depois de dias incubado na expectativa quase solene de vestir a faixa governamental – ainda que por alguns dias -, Sérgio Gonçalves finalmente rompeu o casulo. Não para governar, claro, mas para exercitar a arte nacional de “chorar pitangas”. O motivo? As exonerações promovidas pelo governador Marcos Rocha, que parecem ter ferido mais o entorno do que qualquer senso de responsabilidade institucional.
IGNORANDO
O enredo ganha contornos de tragicomédia quando se observa que o mesmo Sérgio, outrora ansioso pela cadeira principal, recusou-se a ocupá-la por uma semana durante a ausência do titular. A oportunidade bateu à porta – com direito a gabinete, caneta e holofotes -, mas foi solenemente ignorada.
CÁLCULO
Enquanto isso, quem efetivamente responde pelo governo de Rondônia é o desembargador Alexandre Miguel, Presidente do Tribunal de Justiça. Sérgio, contudo, preferiu a discrição estratégica: ausentou-se do estado. Nos bastidores, especula-se que o movimento não seja mero capricho, mas cálculo político. Assumindo, ficaria inabilitado para uma eventual candidatura a deputado federal ou estadual.



