O ex-secretário de Estado de Ciência e Tecnologia, professor de economia da Unemat, Maurício Munhoz, afirmou que o eleitor não quer mais o chamado “político tradicional” que dá “tapinha nas costas”, mas, sim, um gestor prático, que traga resultados.

Não preciso receber um tapinha nas costas de alguém. As pessoas não estão mais preocupadas com aquele político tranquilo, carismático.
Munhoz tem experiência na iniciativa privada e no setor público, e já atuou no Governo do Estado, Assembleia Legislativa e no Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT).
Para ele, o cenário eleitoral de hoje é diferente do passado. Em especial por conta do impacto das redes sociais.
“Não preciso receber um tapinha nas costas de alguém, também não preciso dar tapinha nas costas de ninguém para votar nessa pessoa”, disse em entrevista ao MidiaNews. “As pessoas não estão mais preocupadas com aquele político tranquilo, carismático. Elas estão preocupadas com o resultado”.
“Eu quero saber se essa pessoa terá entregas, vai fazer algo, não só física, mas entregas também de políticas públicas, de melhorar a minha vida, do meu filho e tudo mais”, avaliou a percepção do eleitor.
Na entrevista, Munhoz ainda avaliou as políticas econômicas do Governo Lula, que para ele são “nefastas”, com juros altos e crédito caro.
Confira os principais trechos da entrevista:
MidiaNews – O cenário que está colocado na eleição é de uma disputa entre o modo antigo, velho e caro para a população de fazer política e uma gestão mais eficiente?
Maurício Munhoz – É sempre isso. As pessoas entenderem o que dá resultado para elas. As pessoas querem algo. Inclusive, entendo que as pessoas nunca votam por gratidão, votam por expectativa. Quem é e qual o modelo que atende melhor a minha expectativa? E qual é a minha expectativa? Uma saúde melhor? Uma segurança mais eficiente?
Pode ser que eu moro no sítio, que eu queira uma logística melhor. Então, cada um tem uma expectativa para o Estado atender. E quem é que tem mais capacidade para oferecer isso para mim? As pessoas não estão mais preocupadas com aquele político tranquilo, carismático. Elas estão preocupadas com o resultado.
Eu sei o que é democracia. Mas, uma vez que estive na China, perguntei para um senhor se ele ficou preocupado que não vota para o primeiro-ministro, para presidente. Ele respondeu assim: “Não, eu não vou votar para ele, eu não conheço ele. Eu não conheço de onde ele veio, quem é o pai dele, quem é a mãe dele, então não preciso votar”.
Olha a sabedoria que tem por trás disso. O que ele quis dizer é: eu não estou preocupado em votar em alguém que eu nem conheço, não tenho intimidade com essa pessoa. Estou satisfeito porque o Estado está me atendendo. É lógico, eles estão falando da China, estrutura de pensamento deles. Eles pensam de uma maneira muito diferente de nós.
Mas eu faço essa ligação. Eu não preciso receber um tapinha nas costas de alguém, também não preciso dar tapinha nas costas de ninguém para votar nessa pessoa. Quero saber se essa pessoa terá entregas, vai fazer algo, não só físico, mas entregas também de políticas públicas, de melhorar a vida, a minha vida, do meu filho e tudo mais.

Estamos vivendo uma transição da velha política para a nova, que é formada por mais pessoas que executam, especialmente em Mato Grosso
MidiaNews – Hoje faltam lideranças políticas e empreendedores que apresentem soluções para as diversas situações de políticas públicas que precisam ser melhoradas?
Maurício Munhoz – Aquela liderança antiga, tradicional, daquele sujeito que se posiciona, que tem uma empatia com população? Talvez, sim. Mas hoje estamos pensando em um novo modelo de político. Aquele político que pode não ser carismático, mas que executa, entende bem o papel do Estado. Ele faz as coisas acontecerem, faz políticas públicas que chegam à população.
Estamos vivendo uma transição da velha política para a nova, que é formada por mais pessoas que executam, especialmente em um Estado igual Mato Grosso. Um Estado que já se habituou a esse tipo de político, a começar pelo ex-governador Blairo Maggi. Ele é um grande empresário que as pessoas diziam que não tinha nenhuma empatia. E acabou sendo um governador referência, depois tivemos o Mauro Mendes nessa mesma linha.
MidiaNews – A história está se repetindo, porque temos o governador Otaviano Pivetta. É essa a linha das novas lideranças, de entregar mais resultados do que tapinha nas costas?
Maurício Munhoz – Eu vejo assim, são pessoas que não têm aquela formação do velho político, mas estão executando. Pode haver críticas, mas é uma nova maneira de pensar o Estado, uma maneira mais eficiente, que chegue mais à população, que tenha mais entregas reais.
MidiaNews – O senhor tem bastante experiência no setor público, em vários níveis de poderes. A correta aplicação do dinheiro público pelos gestores, melhorou ou piorou? Você pode dar exemplos do Brasil e de Mato Grosso de casos de sucesso?
Maurício Munhoz – Tem uma soma de fatores. A mídia está de olho e os organismos de acompanhamento, como o Tribunal de Contas, Ministério Público, têm feito com que os gestores se preocupem mais com a aplicação correta do dinheiro público. Porque hoje qualquer passo errado aparece e encaminha para escândalos. Tenho visto as pessoas mais preocupadas com isso. Vou citar aqui o exemplo do governador Mauro Mendes, quando ele assumiu o Governo do Estado, esteve uma vez em Sorriso e foi vaiado. Por quê? Ele estava adotando um modelo muito rígido do controle das contas.
Ele fez uma reforma tributária, reforma administrativa e no primeiro momento aquilo soou muito mal. E depois disso, voltou a Sorriso, até eu era secretário de Estado quando voltei com ele lá, e nesse mesmo espaço de Sorriso falou: “Quando estive aqui, logo que assumi, fui vaiado por esse mesmo público que hoje me aplaude”. Isso foi porque ele conseguiu equilibrar as contas do Estado. Entendo que esse é um exemplo a ser dado.
MidiaNews – Qual é o tamanho do impacto das redes sociais na eleição, para o bem ou para o mal? As medidas que a Justiça Eleitoral está tomando para coibir isso estão corretas? Qual que a sua avaliação?
Maurício Munhoz – É, não consigo medir um percentual, mas pode ser que seja o fim de uma pessoa uma notícia falsa. Ela pode ser destruída. Assim como pode ser enaltecida. A rede social ainda tem que ser muito estudada, mas tem, na minha opinião, tem que ser controlada. Ao menos os seus excessos. Porque senão é muito fácil eu soltar um vídeo aqui acusando alguém, montando, com inteligência artificial, uma acusação e essa acusação ser disseminada.
Então, a gente tem que buscar conter os excessos, embora a gente tem que sempre preservar, elogiar, enaltecer a liberdade de expressão. As redes sociais são um exemplo de democracia. Mas pode destruir ou enaltecer uma pessoa, sem dúvida.

Hoje as pessoas já pensam duas vezes antes de acreditar na fake news, por exemplo. A fake news teve muito mais poder, porque as pessoas acreditavam
MidiaNews – Com o seu conhecimento de sociologia, como avalia o desempenho das redes sociais no comportamento das pessoas? É a favor de mais restrições, como no caso do que foi feito nas escolas?
Maurício Munhoz – As redes sociais são um fenômeno muito complexo. A gente tem que estudar melhor. A gente está vivendo o olho do furacão delas. Porque a gente está sem saber entender alguns dos seus efeitos. Mas a gente já viu acontecer pelas redes sociais desde grandes atrocidades, injustiças. Eu vi o caso de uma mulher que foi acusada de pedofilia e aquilo não era verdade e ela foi morta por violência física.
E a gente viu também pessoas crescerem, porque a mídia tradicional não dava espaço para ela e ela cresceu, o trabalho dela foi divulgado pelas redes sociais. Então, vivemos um processo de muita cautela para compreender os efeitos das redes sociais.
Sem dúvida, ela é muito poderosa. Embora a gente está percebendo também que ela já foi mais impactante. Hoje as pessoas já pensam duas vezes antes de acreditar na fake news, por exemplo. A fake news teve muito mais poder, porque as pessoas acreditavam.
Então, acredito que ela pode ser um instrumento mais contido, com o tempo, as pessoas controlarem mais. Em, no geral, para educação, por exemplo, a utilização de celular em sala de aula é uma coisa muito discutida e a tendência maior que ouço dos especialistas é que deve ser evitado, porque isso pode ter um efeito nocivo.
MidiaNews – O senhor tem prática na área de pesquisa de opinião, como avalia no cenário eleitoral geral o desempenho dos atuais candidatos, tanto a presidente quanto ao Governo do Estado? Lembrando que o eleitor não está ainda motivado, ligado na eleição e na realidade.
Maurício Munhoz – Diferencio muito uma eleição para presidente da eleição para governador, prefeito e vereador. O ser humano, racionaliza, mesmo sem saber. Ele está pensando no que ele recebe de volta.
[Pierre ] Bourdieu, o pensador, fala em economia das trocas simbólicas. Para a presidência da República, tirando os extremismos, quem é bolsonarista, quem é lulista, o cidadão comum, para a presidência, o que mais afeta é o bolso, é a economia. Então, se a economia está boa, a tendência é ele votar na situação. Se a economia não está boa, a tendência é migrar para uma nova experiência, para a oposição.
Para Governo do Estado, não é essa a lógica. E o cidadão, mesmo sem saber, faz a diferenciação. Para o Governo, ele está pensando em obras. Está pensando em entregas. Está pensando no hospital regional, está pensando na ponte, está pensando no asfalto.
É isso que incentiva o sujeito a votar para um governador, na minha opinião. Entregas. Se ele fez, se realizou, porque ele entende que a economia não é responsabilidade do governador. Entende que a economia é responsabilidade do presidente da República. Então essa é a grande diferenciação.
E os deputados entram nessa, de auxiliares do Executivo, no caso estadual ou federal. São as diferenciações que faço.
MidiaNews – Como avalia aí a questão da credibilidade ou não dos institutos de pesquisa que tem errado nas últimas eleições?
Maurício Munhoz – Erra mesmo. Acredito que tem instituto que tem erro porque quer errar, não duvido que exista isso, mas no geral, qualquer universo de pesquisa, vai errar no mínimo 5%. Inclusive, quando vai ver lá a nota técnica da pesquisa tem: credibilidade 95%. É o índice de confiança, porque você erra.
Vai errar algumas pesquisas mesmo. Agora, se você trabalhar com método, se trabalhar com uma amostra correta, com uma metodologia correta, em geral vai acertar. Em geral acerta. Erra por alguns fatores. Um pode ser um erro humano. Pode ser que a equipe de pesquisa negligenciou. E quem fez o acompanhamento, a crítica, errou também. Isso é possível, um erro técnico é um erro humano.
Mas é possível também que haja fenômenos que aconteçam. Por exemplo, fez uma pesquisa na quinta-feira que apontou que o João tem 60% para governador. Na sexta-feira, a rede social começa a disseminar o João está, sei lá, abusando de uma criança. O impacto disso é que a gente não consegue medir.

A princípio, o que parece mais lógico é aumentar a produção, aumentar o número de empresas, o número de indústrias, porque naturalmente aumenta a receita
MidiaNews – As pesquisas realmente caíram em descrédito ou ainda são importantes para o processo eleitoral?
Maurício Munhoz – Elas são muito importantes. A gente tem que saber, por exemplo, onde buscar as coisas. Por exemplo, se for fazer pesquisa por telefone há 10 anos atrás, ligava para casa das pessoas. Hoje, ninguém mais tem telefone fixo. Então, onde vai buscar um banco de dados de celular das pessoas? Então, se você usar isso conforme usava há 10 anos, está errando. Ou mesmo pesquisa de campo. Onde vai buscar entrevistar pessoas da classe A, da classe B? Você não consegue entrar em condomínio, tem que ter uma tecnologia adequada para os novos tempos.
Se você deixar de fora a classe A e B, tem uma pesquisa com viés, mas onde vai buscar a pessoa de classe A e B? Então, a gente tem que readequar as técnicas, mas isso está sempre em transição.
A gente tem que estar sempre estudando a nova tecnologia para chegar nas pessoas. Chegando, você ainda tem assertividade, considerando essa possibilidade de mudanças rápidas. As mudanças acontecem rápidas por conta, especialmente, das redes sociais, da influência que elas têm na vida das pessoas.
MidiaNews – Um dos temas atuais é a questão da carga tributária. O senhor tem alguns livros publicados sobre esse assunto. Por que a carga tributária no Brasil é tão alta? E como isso impacta em Mato Grosso? Como fazer para reduzir isso?
Maurício Munhoz – È realmente uma situação bastante complexa. A gente está em diante de uma reforma tributária, que está prevendo algumas mudanças significativas. Inclusive, tirando o poder dos Estados promoverem mudanças na carga tributária. Agora, vai ser padrão para todos os Estados. Aquela guerra fiscal onde Mato Grosso, para atrair empresas, para facilitar segmentos, muda, diminui a carga tributária, não tem mais.
Com a reforma tributária, vejo mais dificuldade para os Estados, os municípios atuarem e a própria União, porque é uma regra que vai valer padrão. Então vai deixar de existir essa facilidade. Nós temos que pensar nisso.
A princípio, o que parece mais lógico é aumentar a produção, aumentar o número de empresas, o número de indústrias, porque naturalmente aumenta a receita e você não precisa promover aumentos tributários também.
MidiaNews – Como avalia as atuais políticas econômicas do governo Lula, principalmente na questão da oferta de crédito, que foi anunciado de R$ 740 bilhões, dos quais metade do BNDES, em meio a inflação alta e juros altos. Como resolver essa equação?
Maurício Munhoz – É uma grande contradição. O governo quer promover desenvolvimento, quando oferta crédito, que significa desenvolvimento, crescimento da economia, a princípio. Por outro lado, um juros absolutamente esfoliante, o que inibe a atividade econômica. Estamos vivendo uma bela contradição. É lógico que o Banco Central tem sua autonomia. Porém, o Lula, quando era o presidente anterior, ele criticava porque o juros estava alto. Agora, que é um presidente indicado por ele, parou de criticar e a política é a mesma.
É uma política, minha opinião, muito nefasta para o país. Porque não adianta oferecer crédito, esse crédito é alto. O crédito, mesmo que seja subsidiado pelo BNDES, é abusivo. O crédito hoje, considerado subsidiado, é abusivo. Imagina o crédito para o cidadão comum, como nós.
Porque a gente paga direto ou diretamente por um crédito muito alto. Você vai comprar no supermercado, aqui se o supermercado está precisando pegar crédito nesse juros alto, vai fazer com que o preço da mercadoria aumente. É uma roda. O Brasil tem o segundo maior juros real do mundo, só perde para a Turquia. É uma receita das coisas dar errado, é uma receita de sofrimento.
MidiaNews – Como desatar esse nó? Quais seriam os caminhos?
Maurício Munhoz – É longo prazo. Eu, se eu tivesse autonomia, não quero fazer aqui uma conversa lúdica, uma conversa ingênua, porque o Banco Central se baseia em juros futuros. Ele está preocupado em não promover a inflação. Então, está prevendo que se os juros não cair, vai surgir inflação. E nada mais nefasto do que a inflação. Nós convivemos com inflação.
Mas o que eu faria? Eu não teria uma política econômica tão ortodoxa. Ou seja, controle de gastos, gerar superávit primário, não teria muita preocupação com isso. Isso significa manter os juros altos também para manter essa política de acompanhar o superávit primário. Eu voltaria o olhar para uma política social mais abrangente. Ou seja, estimularia as políticas sociais, porque isso é uma forma de gerar renda na sociedade e eu não cortaria políticas sociais para obedecer à lógica do mercado.
E com isso, também mostraria para o Banco Central que estamos apostando em políticas sociais como forma de dimensionar a nossa economia. E não estaria assim só obedecendo o que a Faria Lima, o que o mercado quer. O mercado quer segurança.

Com relação à Baixada Cuiabana, se a ferrovia vem para cá, nós temos condições de pensar numa mudança real da matriz econômica. E pode se pensar em indústria, pode se pensar muito mais em logística como um todo
MidiaNews – O senhor já foi secretário do governo na área de infraestrutura e também na área de ciência e tecnologia. O que Mato Grosso fez a fazenda de projetos para não perder o bonde da história nessas duas áreas?
Maurício Munhoz – Uma coisa que o governo do Estado Mato Grosso fez que foi muito importante, dentre outras, essa estadualização da ferrovia. Hoje essa ferrovia aqui é dentro do Estado. E com isso nós estamos tendo uma obra aqui pouco divulgada, mas que é fantástica, é um quilômetro por dia de avanço da ferrovia no Mato Grosso. Então a ideia de ferrovia, uma logística não tão dependente da rodovia, é uma coisa que foi exemplo para países como Estados Unidos, para países que deram certo investir nessa capilaridade logística.
Por exemplo, com relação à Baixada Cuiabana, se a ferrovia vem para cá, nós temos condições de pensar numa mudança real da matriz econômica para cá. E pode se pensar em indústria, pode se pensar muito mais em logística como um todo, porque hoje é um grande negócio trabalhar em logística.
MidiaNews – Neste caso específico, com essa logística da ferrovia, pode-se pensar em uma cadeia de investimentos da indústria têxtil?
Maurício Munhoz – Pois é, facilita muito isso. Imagina aqui, a pode usar algodão e nós não temos uma indústria têxtil completa. Então, com a ferrovia aqui você diminui muitos custos. E isso o Estado fez, por exemplo, a BR-163, nessa modelagem, iniciativa privada com o Estado, essa modelagem moderna, o MT Par alavancando isso, são iniciativas muito interessantes e que o Estado deve, na minha opinião, apostar mais nisso ainda, para a logística, a energia serem cada vez menos impeditivo para o crescimento do Estado, para industrialização do Estado dentro da lógica da economia verde e do agronegócio.
Nós não vamos imaginar que vai vir uma indústria da Volkswagen aqui. Não faz sentido ter uma indústria dessas, mas dentro do complexo do agronegócio e da economia verde, sim. Então, a logística é um fator que ajudaria muito. Eu vejo passos que foram dados nesse sentido, para ajudar essa construção. E também a solução que já estamos vendo, como eu falei.
Em várias regiões o Estado se juntou com produtores, os produtores entraram com diesel, entraram com isso, com aquilo, que diminuiu o custo e foram feitos asfaltos, melhoria nas estradas vicinais, o que diminuiu muito aquela pobreza logística que nós tínhamos há poucos anos atrás. Foi com uma receita maior que o Estado está tendo, mas foi também com inteligência, foi com essa iniciativa ousada que tem dado resultado.