Da extração à inovação – dos varadouros ao desenvolvimento sustentável e próspero


Para que o Acre promova um desenvolvimento que potencialize sua complexidade socioecológica e econômica, aproveitando a riqueza gerada da floresta e das áreas já abertas, não basta apenas extrair os recursos. É preciso intensificar o processo de industrialização, incorporando conhecimento, investimento em equipamentos e desenvolvendo sistemas de produção com algum grau de sofisticação, ou seja, é preciso apostar em uma economia com nível de complexidade maior que a mera exploração de produtos primários – esse foi o caminho seguido pelas regiões que hoje apresentam elevado nível de desenvolvimento.

Abaixo, neste texto, procuraremos mostrar como isso é possível e quais as condições políticas, sociais e tecnológicas necessárias para que o processo gere os resultados que a realidade acreana demanda neste momento.

No contexto atual de nossa economia, apostar no adensamento das cadeias e atividades passa, primeiramente, pelo fortalecimento das agroindústrias existentes, a começar pelo processo florestal-industrial que é ainda bem incipiente. Isso implica na implementação de ações orientadas por uma visão estratégica que conjugue a viabilização de financiamento, o fortalecimento da capacidade de inovação tecnológica, a organização dos produtores comunitários e privados e a criação de condições para o incremento das capacidades técnicas locais.

As quatro ações estratégicas destacadas acima precisam ser induzidas por políticas públicas que sejam capazes de apoiar a transformação do que a floresta e a agropecuária nos oferecem hoje em algo muito mais valioso. Só assim construiremos uma riqueza duradoura que beneficie a todos.

Em um mundo cada vez mais incerto, onde a informação confiável é um bem escasso, é fundamental que a análise sobre o nosso Acre seja profunda e cuidadosa, longe de visões apressadas, superficiais ou dominadas por extremismos ideológicos.

O salto tecnológico e a complexidade produtiva: um novo rumo para a economia acreana

O grande desafio do Acre é transitar de uma economia agroextrativista para um modelo que incorpore tecnologia e processos mais elaborados. Não basta apenas extrair a castanha ou produzir soja e milho, e vendê-los in natura; precisamos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para criar etapas de produção que agreguem valor, transformando esses recursos em produtos mais sofisticados.

Em regiões periféricas, na maioria das vezes, a agropecuária se expande com pouco financiamento e baixa qualificação da mão de obra, o que desestimula o investimento em capital humano. Historicamente, a agropecuária tende a destruir para depois ocupar o território e extrair sua riqueza; e, diferentemente da indústria, não transborda para outros setores da economia. A indústria, por sua vez, amplia benefícios sociais e econômicos e exige constantemente desenvolvimentos em pesquisa e inovação. Por tudo isso, a pergunta central que devemos nos fazer é: como desenvolver tecnologias que beneficiem nossos produtos primários, dando o salto tecnológico capaz de elevar o grau de complexidade da estrutura produtiva do Acre?

Há alguns anos, tive o privilégio de visitar a principal zona industrial da Itália, particularmente a região que produz o mobiliário em madeira mais valorizado do mundo. Lá, vi que a região não se limitou a importar as máquinas que precisava. Ao invés disso, produzem-nas e, igualmente, desenvolvem as tecnologias, os softwares, que as fazem funcionar, criando soluções adequadas às suas especificidades. Isso criou um círculo valioso de inovação e aprimoramento contínuo, que resulta de investimento e gera condições para mais investimento, público e privado, ampliando as margens.

Outro caso inspirador são os países asiáticos, que investiram pesadamente em atividades econômicas complexas para agregar valor, impulsionando o desenvolvimento de suas populações e seus territórios. O Acre pode buscar um caminho parecido, principalmente na bioeconomia, investindo em Pesquisa e Desenvolvimento para transformar os vastos recursos locais de forma única.

Os pilares do desenvolvimento sustentável: quatro pontos essenciais para o acre

O crescimento sustentável e duradouro do Acre deve se apoiar em quatro pilares interligados, que formam a base para um sistema produtivo robusto e em harmonia com a natureza:

Financiamento Acessível: O acesso a capital é crucial. Precisamos de linhas de crédito e investimentos adaptados à realidade dos produtores da floresta, com taxas de juros competitivas e prazos de pagamento flexíveis.

Organização Produtiva: A força está na união. Cooperativas e associações são fundamentais para otimizar a produção, negociar melhores preços e promover a troca de conhecimentos e experiências.

Inovação e Tecnologia Local: Como já destacado, a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias adaptadas à nossa realidade são a chave para agregar valor aos produtos e otimizar os processos, desde o manejo florestal até a transformação final.
Qualificação Profissional: Investir em educação e capacitação é imperativo. Precisamos formar profissionais com as habilidades necessárias para operar novas tecnologias e gerenciar cadeias produtivas mais complexas.

A história da extração e seus legados: desafios e reflexões

A trajetória do Acre é intrinsecamente ligada à exploração de seus recursos florestais. Esse processo gerou conquistas significativas, como a criação da Reserva Extrativista (RESEX) Chico Mendes e o fortalecimento de organizações como a COOPERACRE. Essas iniciativas foram cruciais para assegurar nosso espaço e reafirmar a nossa identidade. É relevante notar que, historicamente, muitos dos movimentos revolucionários globais foram impulsionados pelo campesinato, uma classe que, em muitos casos, não tinha relação com os hábitos urbanos de consumo da pequena burguesia. Os extrativistas formaram o nosso campesinato revolucionário.

Apesar dos avanços, persistem desafios consideráveis. Ainda há carências significativas em saúde, educação, infraestrutura e qualidade de vida. A floresta em pé deve gerar não apenas produtos, mas também serviços públicos de qualidade e oportunidades concretas para seus habitantes. A valorização dos produtos deve se traduzir em uma vida mais digna e facilitada para as pessoas.

O papel fundamental da governança e das políticas públicas

Os quatro pilares do desenvolvimento, por mais essenciais que sejam, não operam isoladamente. Eles demandam um governo forte e políticas públicas que promovam a participação de todos os atores envolvidos: cabe ao governo estabelecer as regras, investir em infraestrutura, apoiar a pesquisa e garantir a qualificação da população. As políticas públicas são, portanto, o motor que articula o financiamento, a organização produtiva, a inovação e a capacitação, impulsionando o desenvolvimento de forma coordenada e inclusiva.

O acre na encruzilhada da inovação e do desenvolvimento

O Acre se encontra em um momento crucial. Nossa floresta exuberante, as amplas áreas já abertas e hoje ocupadas pela pecuária e a agricultura, e a vasta experiência de seus povos no manejo dos recursos naturais, fornecem uma base sólida para um desenvolvimento que harmonize economia, desenvolvimento social e sustentabilidade. A floresta transcende o papel de mera fonte de extração, tornando-se um celeiro de novas ideias, um berço de talentos e um modelo de governança que pode inspirar toda a Amazônia. O desafio é imenso, mas a oportunidade de construir um futuro próspero e sustentável para o Acre é ainda maior.

Texto inspirado na entrevista do economista Ronald Polanco, conselheiro do TCE-AC, ao jornal A Tribuna, 10 de março



VER NA FONTE