‘Pilotando uma bola de fogo’: como os astronautas da Artemis 2 voltarão para a Terra


Depois de viajar pela maior distância já percorrida pelo ser humano, chega a hora de uma das partes mais arriscadas da missão Artemis 2: o retorno à Terra.

A cápsula Orion está programada para pousar no oceano Pacífico, perto do litoral de San Diego, no Estado americano da Califórnia, perto das 21 horas de Brasília desta sexta-feira (10/4).

“Na verdade, venho pensando na reentrada desde 3 de abril de 2023, quando fomos designados para esta missão”, declarou recentemente do espaço o piloto da Artemis 2, Victor Glover.

“Ainda nem comecei a processar tudo o que aconteceu… e pilotar uma bola de fogo pela atmosfera é algo extremamente profundo.”

As preparações

No seu último dia completo no espaço, a tripulação começou a se preparar para o retorno à Terra, estudando os procedimentos de reentrada e pouso. Eles também experimentaram suas roupas de compressão, que podem ajudar a evitar vertigens na volta à gravidade terrestre.

O módulo da tripulação e o módulo de serviço irão se separar cerca de 20 minutos antes que a Orion atinja a atmosfera superior da Terra.

A cápsula irá, então, se virar, para que seu escudo térmico possa suportar a maior parte das ardentes temperaturas que serão geradas e manter os astronautas em segurança no seu interior.

Se for necessário, um ajuste final da trajetória irá corrigir o ângulo de voo, cerca de 16 minutos e meio antes de atingir a atmosfera terrestre.

A espaçonave precisa entrar na atmosfera em um ângulo muito específico. O professor Chris James, do Centro de Hipersônica da Universidade de Queensland, na Austrália, explica que existe uma margem de erro, mas é muito pequena — um grau para mais ou para menos.

“Quando atingirem a interface de entrada, eles irão querer garantir que as condições sejam exatamente as esperadas”, segundo ele. A interface de entrada é o ponto em que a espaçonave faz a transição do espaço para a atmosfera superior do planeta.

“Se eles estiverem no ângulo errado, o veículo simplesmente irá queimar na atmosfera. Se eles entrarem alto demais, com uma pequena elevação no veículo, poderão ser jogados para trás, para fora da atmosfera.”

“Começa a diversão”

O diretor de voo da Artemis 2, Rick Henfling, explicou durante uma entrevista coletiva na quarta-feira (8/4) que a Orion atingirá a interface de entrada a uma altitude de 122 km. “É ali que realmente começa a diversão”, segundo ele.

À medida que a Orion se arremessar pela atmosfera, seu escudo térmico será exposto a temperaturas de cerca de 2.700 °C, equivalentes à metade do calor da superfície do Sol.

Houve muita preocupação com o escudo térmico, pois ele foi seriamente danificado durante a primeira missão Artemis, não tripulada. Mas os engenheiros estão confiantes de terem resolvido o problema, ajustando o ângulo de reentrada na atmosfera.

Henfling afirma que os astronautas irão pousar no Oceano Pacífico apenas 13 minutos depois que entrarem na atmosfera terrestre.

Espera-se que, 24 segundos após a reentrada, a cápsula perca completamente o contato com a Terra por seis minutos.

James explica que, durante a descida pela atmosfera, o aquecimento do ar causado pela espaçonave faz com que elétrons sejam arrancados dos átomos de oxigênio e nitrogênio, formando um plasma eletricamente carregado que bloqueia os sinais de rádio.

Segundo Henfling, após o blackout de seis minutos, a Orion estará a cerca de 46 km do solo — e ainda caindo com muita rapidez.

“Naquele momento, estaremos a algumas dezenas de quilômetros do local do pouso”, explica ele. “Em seguida, nosso foco será abrir os paraquedas.”

Reduzindo a velocidade

A espaçonave irá se lançar pela atmosfera da Terra a mais de 40 mil km/h. E, para reduzir a velocidade, James explica que a primeira etapa é usar a atmosfera como freio.

A cápsula Orion é projetada para não ser aerodinâmica. Por isso, “ela atinge a atmosfera literalmente como um tijolo voador e usa essa força de arrasto da própria atmosfera para reduzir sua velocidade”.

A essa velocidade, James afirma que os astronautas “irão sacudir muito”.

Os veículos não tripulados podem entrar na atmosfera em cerca de um minuto, a uma força de cerca de 100 Gs. Mas ele explica que os seres humanos não conseguem sobreviver nestas condições.

Para que a tripulação possa suportar a descida, entrar em ângulo faz com que ela possa levar cinco minutos em vez de um, reduzindo a força G a que eles serão expostos.

Quando a espaçonave estiver em segurança, diversos paraquedas serão abertos para reduzir a sua velocidade.

“Serão abertos dois paraquedas de desaceleração”, explica Henfling. “Será a cerca de 6,7 km. Isso irá reduzir a velocidade para cerca de 322 km/h.”

Os paraquedas de desaceleração são projetados para estabilizar e reduzir a velocidade da espaçonave antes da abertura dos paraquedas principais — o que, segundo Henfling, “só irá acontecer a cerca de 1,8 km de altitude, reduzindo a velocidade da espaçonave e dos seus quatro habitantes para uma queda suave a 32 km/h no Oceano Pacífico”.

A queda

Uma equipe de resgate estará no aguardo dos astronautas, perto do litoral da Califórnia.

A cápsula poderá cair na vertical, de cabeça para baixo ou de lado. Airbags laranja brilhantes irão se inflar, para ajudar a virá-la na vertical, permitindo a saída da tripulação em segurança.

A vice-gerente do programa Orion, Debbie Korth, declarou na quarta-feira (8/4) que a Nasa “espera resgatar a tripulação e enviá-los para a assistência médica em até duas horas após o pouso”.

Ela calcula que os astronautas estarão de volta a terra, na Base Naval de San Diego, em até 24 horas. E, com a missão cumprida, elas terão sua primeira oportunidade de andar novamente em terra firme e refletir sobre a viagem das suas vidas.

Eles terão entrado em um grupo de elite, de apenas 24 astronautas que já voaram em torno da Lua.

“Esta é a reentrada mais rápida de um ser humano na Terra nos últimos 50 anos”, conta James. Ele destaca que a Nasa leva muito a sério sua missão de trazer os astronautas para casa em segurança.

“Mas ainda há uma parte de mim que se sentirá muito mais confortável quando eles estiverem de volta à Terra”, conclui Chris James.

Por: Correio Braziliense



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