
Cleber Barbosa
Da Redação
Diário do Amapá – Seja bem-vinda. Na sua percepção, quais as principais cadeias de prestação de serviços que podem surgir ou se fortalecer no Amapá com o avanço da exploração da margem equatorial?
Ana Tereza Parente – São várias. Toda a cadeia logística deve crescer bastante. Estamos numa fase de sísmica e perfuração, que ainda busca confirmar a existência de óleo em quantidade comercialmente viável para justificar os investimentos, mas a probabilidade é alta. Por isso, há todo um planejamento estratégico da Petrobras para investir na área. Nesse momento, é fundamental que diversas cadeias já estejam se expandindo, como construção e infraestrutura, monitoramento ambiental e serviços corporativos indiretos. Já existem serviços voltados a emergências ambientais e técnicos especializados, como perfuração e engenharia submarina. Na fase exploratória, que deve ocorrer em cerca de três anos, haverá grande demanda por bases logísticas, como portos, aeroportos, rodovias e transporte marítimo e aéreo. Essas estruturas não se constroem rapidamente, então é necessário planejamento desde já.
Diário – Como o Estado pode evitar que essas cadeias funcionem apenas como extensão de polos já consolidados, como Macaé, garantindo maior agregação de valor local?
Ana Tereza – Essa é uma grande preocupação. A indústria de óleo e gás hoje se concentra em polos como Macaé, Santos e Rio de Janeiro. Mas com a expansão da margem equatorial, há possibilidade de migração desse centro. Para isso, é essencial investir em educação e especialização. Universidades e centros técnicos precisam se expandir na região para preparar a população local e garantir que os benefícios fiquem aqui..
Diário – É possível conciliar desenvolvimento econômico com a sensibilidade ambiental da Amazônia?
Ana Tereza – E Com certeza. Um dos princípios da indústria é a segurança. O que vemos hoje é um início de investimentos com forte preocupação socioambiental. A Amazônia é uma região extremamente sensível, então exige cuidado redobrado. Há projetos voltados ao mapeamento ambiental completo da região e ao uso das melhores tecnologias disponíveis. Diferente do passado, quando a exploração começou com menos conhecimento, hoje temos um licenciamento muito mais rigoroso. Vejo esse processo com bons olhos. O Brasil precisa investir em energia, e o petróleo ainda é fundamental para a nossa base produtiva.
Diário – Já há impactos nas cidades, como Oiapoque. Como lidar com o crescimento urbano desordenado?
Ana Tereza – Existem leis e instrumentos para isso, mas é necessário esforço da administração pública. A capacitação dos servidores é essencial. Será preciso investir mais em educação e formação profissional, especialmente de quem vai planejar e executar políticas públicas, garantindo um crescimento urbano organizado.
Diário – O MBA que você coordena também contempla essa preocupação?
Ana Tereza – Sim. Inicialmente, a proposta era focada na advocacia, mas ampliamos para incluir uma linha voltada à administração pública. O curso tem um módulo técnico, com conceitos de engenharia e do setor, e outro voltado ao direito e à regulação. A ideia é preparar tanto profissionais do setor privado quanto servidores públicos para esse novo cenário.
Diário – Existe a possibilidade de o Amapá se tornar referência nacional em monitoramento ambiental offshore?
Ana Tereza – Sim, é uma grande oportunidade. A Petrobras é referência mundial em exploração em águas profundas, e o Brasil desenvolveu tecnologia própria para isso. A região tem potencial, mas exige cuidado. O caminho é um licenciamento rigoroso, participação das comunidades tradicionais e estabelecimento de condicionantes claras. O que está sendo feito hoje na região está entre o mais moderno do mundo em termos de investimento socioambiental. Isso pode posicionar o Amapá como referência.
Diário – Uma mensagem sobre esse momento?
Ana Tereza – Temos muitas oportunidades, mas também muitos desafios. A sustentabilidade da margem equatorial depende de leis fortes, gestão técnica e atenção à sensibilidade ambiental. Se houver planejamento e capacitação, o Amapá pode aproveitar esse momento de forma estratégica e duradoura.
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