Marlon Tseng (*)
Nos últimos meses, a intensificação de iniciativas dos Estados Unidos voltadas à reorganização econômica na América Latina tem chamado atenção não apenas pelo viés político, mas também por seus efeitos práticos no ambiente de negócios. Entre eles, um impacto ainda pouco discutido começa a ganhar relevância: o aumento da fricção nos pagamentos internacionais.
Embora muitas dessas movimentações venham acompanhadas de promessas de crescimento e estabilidade econômica, mudanças estruturais nas relações comerciais e financeiras podem gerar efeitos colaterais imediatos, especialmente no fluxo de transações entre países.
Hoje, o cenário global já evidencia ineficiências importantes. Segundo o World Bank, o custo médio global para envio de remessas internacionais gira em torno de 6% a 7% do valor transacionado, mais que o dobro da meta de 3% estabelecida pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Em alguns corredores, esse custo pode ultrapassar 10%, refletindo a complexidade e a quantidade de intermediários envolvidos.
Além do custo, o tempo também é um entrave. Transações internacionais via bancos correspondentes ainda podem levar de 3 a 5 dias úteis para serem concluídas, especialmente em mercados emergentes, segundo análises do Bank for International Settlements (BIS) e do Financial Stability Board (FSB). Ao mesmo tempo, apenas cerca de metade das transferências chega ao beneficiário final em até uma hora, evidenciando a fragmentação da infraestrutura global de pagamentos.
A reorganização econômica pode alterar os fluxos de moeda e impactar diretamente a forma como os pagamentos internacionais são processados. Quando há mudanças nas relações entre países, isso se reflete rapidamente na infraestrutura financeira.
Outro ponto de atenção é o efeito das tensões políticas sobre as relações bancárias. Em alguns casos, instituições financeiras internacionais reduzem ou encerram parcerias locais como forma de mitigar riscos, um fenômeno conhecido como “de-risking”. Esse movimento reforça o papel das intermediadoras especializadas, que passam a ser o elo essencial entre empresas e o acesso a redes globais de pagamento, especialmente em mercados onde os grandes bancos optam por recuar.
Segundo o Bank for International Settlements (BIS), em seu levantamento trienal mais recente, de 2022, o mercado global de câmbio movimenta cerca de US$ 7,5 trilhões por dia, evidenciando a escala e a complexidade das transações financeiras internacionais. Em paralelo, dados mais recentes da própria instituição indicam que o crédito bancário transfronteiriço soma aproximadamente US$ 45 trilhões, refletindo o alto grau de interconexão financeira entre países e, consequentemente, a sensibilidade desse sistema a mudanças geopolíticas.
Ao mesmo tempo em que o sistema é altamente conectado, ele ainda é pouco eficiente. Qualquer tensão adicional, seja regulatória, política ou cambial, pode aumentar a fricção e o custo dessas operações.
Outro desafio está na diversidade regulatória. Diferenças entre legislações nacionais estão entre os principais obstáculos para pagamentos internacionais e tendem a se intensificar em um cenário de maior fragmentação econômica.
Nesse contexto, intermediadoras de pagamento que operam em mercados emergentes estão na linha de frente desse desafio, e também na melhor posição para respondê-lo. Por já navegarem diariamente pela diversidade regulatória, pela volatilidade cambial e pelas especificidades de cada corredor, essas empresas acumulam o conhecimento operacional que grandes instituições financeiras globais raramente têm. O diferencial competitivo, nesse cenário, não está no tamanho, está na capacidade de manter os pagamentos fluindo mesmo quando o ambiente ao redor se torna mais complexo.
Acompanhar essas mudanças e antecipar seus impactos é essencial para apoiar empresas que atuam em mercados emergentes. O desafio não é apenas processar pagamentos, mas garantir que eles continuem acontecendo de forma fluida, mesmo em um cenário global mais fragmentado.
(*) Marlon Tseng, CEO da Pagsmile