Janela partidária e o grande butim eleitoral em que fidelidade e ideologia não interessam  


Período de janela partidária começou no dia 5 de março e terminou em 3 abril (Imagem: Agência Câmara)

Imagine um casamento em que os enlaçados jurassem fidelidade para a família e à sociedade, mas eles tivessem um período permitido para que se traíssem e pudessem trocar de parceiro ou parceira sem qualquer julgamento moral ou impedimento judicial. Pois é exatamente isso o que ocorre na política quando a legislação permite uma janela partidária em que políticos com mandato e sem mandato troquem de partido sem perda de mandato ou qualquer outra punição.

Esse período de janela partidária começou no dia 5 de março e terminou em 3 abril, movimentando a cena política e tirando dos bastidores verdadeiras cenas de um troca-troca que não ruboriza ninguém como também alimenta verdadeiras cenas de fofocas disfarçadas de informações sérias. Ninguém trata a questão como uma farra imoral legalizada e que expõe falhas dentro do sistema eleitoral brasileiro, em que a fidelidade partidária e ideologia são relativas quando se trata do cálculo eleitoral em busca de se manter no poder ou ter acesso a ele.

O bacanal partidário é permitido pela Lei dos Partidos Políticos, período tratado como negociações e estratégias de pré-candidatos para a formação de chapas visando as eleições marcadas para 4 de outubro. Promessas de amor partidário e ideológico, além de juras feitos na diplomação e posse dos eleitos, deixam de valer quando a janela partidária acaba se tornando uma exceção à regra de fidelidade partidária ou ideológica.

Significa não apenas isso. Essa movimentação frenética vista nas últimas semanas, com conversas de bastidores, intensas negociações e troca-troca partidário, tem outra grande finalidade: verdadeiras acomodações para que as legendas possam obter ainda mais verbas do fundo partidário e do fundo eleitoral de campanha, com valores bilionários para serem gastos na campanha eleitoral.

Se fosse um casamento tradicional, marido e mulher teriam permissão para chifrarem-se em busca de novos parceiros mais convenientes financeiramente, independente de afeição, amor e fidelidade. Enquanto na política os parlamentares e outros políticos que renunciam ao mandato, também por força da legislação, buscam legendas que consideram mais favoráveis às estratégias eleitorais e às possibilidades de uma candidatura vitoriosa.

Tudo isso sem precisar combinar com o povo, que é o principal interessado e que vai bancar tudo isso por meio de seus impostos, se tornando apenas um detalhe a ser pensado depois e por último, no apagar das luzes da boca de urna. Porque todos já aprenderam a fazer esse jogo, sem medo inclusive da legislação e da Justiça, que é condescendente com aqueles flagrados comprando voto ou usando a máquina administrativa.

Espremendo tudo isso, teremos um suco de Brasil, em que o bacanal partidário e as chifrações ideológicas permitidas pela legislação são comandados por uma casta de coronéis nacionais e regionais, com ajuda de seus capatazes, em que a senzala espera cair as migalhas desse grande banquete. Os coronéis mantêm siglas partidárias comandados sob seu domínio e que se tornaram uma elite política ou mesmo uma máfia de grupos familiares que se revezam no poder.

Esses partidos cartoriais nas mãos dos coronéis mostram a verdadeira alma de um Brasil não democrático, cujas siglas são comandadas na força da chibata e das ameaças dos capatazes, as quais têm força e poder para mandar no Congresso Nacional a fim de manter seus interesses, a exemplo da janela partidária e dos valores astronômicos de verbas do fundo partidário e do fundo eleitoral de campanha.

E o que é divulgado na mídia e nas redes sociais sobre esse grande suco de Brasil são apenas fofocas e memes para distrair o povo, como se a política fosse isso mesmo, um grande bacanal autorizado em que o conservadorismo, a moral e os bons costumes não são levados em conta. E o povo sendo distraído e limitando-se a assistir tudo como se fosse um reality show em que a fofoca vale mais do que a discussão sobre o futuro da sociedade que está em jogo.

*Colunista

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