Em agosto, o SBT vai completar 45 anos no ar, mas não há exatamente motivos para comemorar. Desde a morte de Silvio Santos (1930-2024), a emissora tenta encontrar uma nova identidade e um novo rumo, algo que misture a nostalgia e a alegria clássica do comunicador com a modernidade e a seriedade necessárias para se inserir no caminho do futuro. Mas, por uma série de erros de sua direção, ela não consegue nem uma coisa, nem outra –e muito menos um equilíbrio saudável entre as duas.
Nos últimos dias, Daniela Abravanel Beyruti demitiu Mauro Lissoni, que era o diretor artístico e de programação do SBT, e trouxe de volta Murilo Fraga, homem de confiança de Silvio Santos. O veterano vai ter a missão de estancar a fuga do público e fazer a emissora crescer na audiência. Em um momento no qual a Record é um adversário cada vez mais distante e a Band tem roubado o terceiro lugar com frequência, sua tarefa não será nada fácil.
O grande problema do SBT é querer ser levado a sério pelo público e pelo mercado publicitário, mas não se levar a sério internamente. Que marca em sã consciência pensaria em anunciar numa emissora que coloca um suas manhãs um apresentador denunciado por racismo? Ou que tem no horário mais nobre outro comunicador acusado de transfobia –e que, quando teve a oportunidade de se desculpar ao vivo, limitou-se a dizer que não vai mudar?
São dois casos que poderiam até ser aceitos em 1981, quando a emissora entrou no ar (ainda como TVS), mas que não cabem mais em 2026. Os tempos são outros, e a direção precisa acompanhá-los. Não dá mais para dizer que o dono é de outra época, com uma cabeça antiquada, já que Silvio era muito mais acolhedor com as chamadas “transformistas” em seu Show de Calouros entre os anos 1980 e 1990 do que o SBT tem sido atualmente.
E tudo fica pior quando se analisa a reação da direção a esses casos. Sobre os comentários de cunho transfóbico de Ratinho, a emissora disse apenas que o “assuntado foi tratado internamente” e “já foi solucionado”, sem explicar que medidas foram tomadas –até porque, claramente, nada foi feito a respeito. Como concessão pública, o SBT deve mais à população do que uma nota de duas linhas que não explica, não justifica nem soluciona coisa nenhuma.
E Marcão do Povo, que sequer era contratado do SBT quando chamou Ludmilla de “pobre e macaca” –uma fala que ele tentou justificar como uma expressão regional? Demitido pela Record pouco depois do comentário ofensivo, o âncora foi imediatamente contratado pelo SBT –que pareceu não se importar com o posicionamento questionável do novo funcionário.
Algo similar ocorreu na Bahia, onde Marcelo Castro foi dispensado pela Record local após o esquema do pix vir à tona e se tornar caso de polícia. A TV Aratu, afiliada do SBT no Estado, rapidamente chamou o jornalista para comandar o Alô Juca –a boa audiência do programa vale mais a pena do que as manchas que a presença dele traz à imagem da emissora?
Questionada sobre o fato de manter um investigado no ar durante uma coletiva de apresentação da nova grade, Daniela Abravanel Beyruti se fez de desentendida e afirmou não saber nada sobre o caso. O que mostra, na melhor das hipóteses, uma falta de preocupação com o que vai ao ar nas suas afiliadas; e, na pior delas, a capacidade de mentir na cara dos jornalistas para fugir de perguntas que não tem como responder sem se afundar ainda mais. De todo modo, é uma péssima imagem para a principal executiva da emissora.
Os problemas do SBT vão além das polêmicas: a grade voadora, uma piada (de péssimo gosto) que rodeia a emissora desde os tempos de Silvio Santos, não ajudam na sua credibilidade com o mercado nem na visão do público –afinal, televisão é hábito, e é impossível criar uma rotina quando a programação é virada do avesso toda segunda-feira.
O próprio elenco da casa já entendeu que não precisa mais aceitar as mudanças calado ou com medidas bem-humoradas –como fizeram Serginho Groisman, que brincava com o fato de seu Programa Livre (1991-2001) ter mudado de horário 45 vezes, ou Adriane Galisteu, que foi apresentar o Charme (2004-2008) de pijama após ser transferida para a madrugada.
Christina Rocha é um exemplo claro disso: irritada com a ida do Casos de Família para as tardes de sábado, ela gravou um vídeo em que deixava claro que não estava feliz e já avisou que não vai renovar o seu contrato, que termina em maio. Com redes sociais e outras plataformas, a apresentadora tem outras opções de faturar que não desrespeitam a sua história.
Cariúcha também pulou fora do barco quando entendeu que não teria a chance de um programa solo na emissora dos Abravanel –curiosamente, ela foi bem avaliada em testes justamente para comandar o Casos de Família. Já fechou com a RedeTV!, onde assumiu o SuperPop no fim de março.
Quem está em casa também tem dezenas ou até centenas de opções de entretenimento hoje em dia, e mudar de canal está cada vez mais fácil. O resultado disso pode ser visto na audiência da emissora, cada vez pior.
Fica o questionamento: se o SBT não respeita o seu espectador, o seu elenco, os seus anunciantes ou mesmo o fato de ser uma concessão pública, como espera ser respeitado por qualquer um?
A “TV mais feliz do Brasil” tem cada vez menos motivos para sorrir ou para fazer com que seu público sorria. E não é a troca de um executivo que vai resolver isso… Se a direção não entender isso o quanto antes e fizer algo a respeito, a festa de 45 anos da emissora virará um enterro.