Caio Gabriela do Atlético Mineiro (ÁUDIO)



Veículo tem muita história. Fabricado em 1979, prestou serviços até 2013 para o Clube e chegou em 1986 a transportar a Seleção Brasileira para o estádio do rival Cruzeiro

ADAMO BAZANI

Colaborou Vinícius de Oliveira

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A paixão pelos transportes e pelos esportes presente no DNA da empresa Centauro Turismo, de Belo Horizonte (MG), evitou o que seria uma grande perda para a história. E tudo foi meio que “por acaso”.

A aquisição desse ônibus foi obra do acaso. A gente está reformando um ônibus de uma amiga aqui na garagem e ele precisou de uma peça da porta. Eu falei, ‘nós não vamos achar isso novo, eu vou ligar para o ferro velho do Fernando Cunha que ele tem muita coisa lá’. Liguei para o senhor Fernando, ele falou que era para eu ir lá ver a peça e ir pessoalmente para ver uma surpresa que ele tinha. Ele falou, ‘tenho um ônibus aqui que você vai gostar demais da conta’ – relata o gerente de manutenção da empresa Centauro Turismo, Jeferson Henrique dos Reis

O ônibus icônico, que pertenceu ao Galo, CAM (Clube Atlético Mineiro), estava prestes a ser desmanchado e virar ferro-velho, com destaque: a configuração é bem rara para o modelo.

Mas, o fim melancólico e que não faria justiça à importância histórica do veículo foi evitado.

O ônibus já passa por um cuidadoso processo de restauro, que vai além de uma mera reforma.

Tudo será recuperado: pintura original, peças, equipamentos e as funcionalidades que fizeram com que, ao longo do tempo, milhares de atletas brilhassem nos gramados.

E não apenas jogadores do “Galo Forte e Vingador”, mas até da Seleção Brasileira de Futebol, que tinha outro Galo, o Galinho de Ouro, ou o Galinho de Quintino: Arthur Antunes Coimbra. Quem? Ora, o Zico!

Mas a grande estrela desta reportagem especial do Diário do Transporte é o icônico Caio Gabriela II, ano 1979, encarroçado sobre o robusto chassi Mercedes-Benz OF 1313.

O modelo conhecido como Gabriela, produzido pela fabricante paulista CAIO (Companhia Americana Industrial de Ônibus), empresa fundada por José Massa, avô do piloto de Fórmula 1, Felipe Massa, e hoje sob a direção do Grupo Ruas, foi um dos ônibus mais vendidos do Brasil para a sua época.

O Gabriela I, ainda com janelas em ângulo e traseira arredondada, foi produzido entre 1973/74 e 1976, quando entrou em cena o Gabriela II, o mesmo que está sendo restaurado, cuja produção foi entre 1975/76 e 1980/81.

O Diário do Transporte fez uma reportagem especial sobre o modelo, classificado como um “simpático divisor de águas”, e que já foi de tudo: ônibus comum, ônibus com frente de caminhão para a América Latina, trólebus, o primeiro ônibus articulado do Brasil, ônibus urbano de três eixos, ônibus-trator, ônibus da Fiat, ônibus urbano, ônibus rodoviário, …Ufa, a lista não acaba.

Relembre neste link: https://diariodotransporte.com.br/2020/01/01/historia-caio-gabriela-um-simpatico-divisor-de-aguas/

De acordo com o gerente de manutenção da empresa Centauro Turismo, Jeferson Henrique dos Reis, o ônibus foi adquirido 0 km pelo Clube Atlético Mineiro.

“Tinha uma configuração muito interessante com poltronas rodoviárias, porta pacotes e uma porta de modelo rodoviário, que o torna extremamente raro e carregado de histórias” – explica.

E são muitas histórias mesmo. De tristezas e alegrias. De decepções e glórias. Do cotidiano e de muitas curiosidades.

“Fui utilizado no transporte do time profissional por muitos anos e em 1986 houve um fato curioso: o ônibus transportou a seleção brasileira de futebol, que treinou na toca da raposa (centro de treinamento do Cruzeiro). Time rival do galo. Porém o Cruzeiro não tinha ônibus próprio e os traslados foram realizados com o ônibus do Atlético”. – relembra.

O ônibus operou até 2013, transportando os meninos das categorias de base e traslados dentro do Centro de Treinamento do Clube Atlético Mineiro.

“O ônibus ficou abandonado e foi parar em um desmanche em BH. Estava prestes a ter seu fim e a Centauro Turismo o salvou”, disse Jeferson Reis que, não tem dúvidas: o destino do veículo era ser eternizado mesmo, porque não havia plano nenhum para restaurá-lo.

LEIA O RELATO NA ÍNTEGRA APÓS AS FOTOS:

“A aquisição desse ônibus foi obra do acaso. A gente está reformando um ônibus de uma amiga aqui na garagem e ele precisou de uma peça da porta. Eu falei, ‘nós não vamos achar isso novo, eu vou ligar para o ferro velho do Fernando Cunha que ele tem muita coisa lá’. Liguei para o senhor Fernando, ele falou que era para eu ir lá ver a peça e ir pessoalmente para ver uma surpresa que ele tinha. Ele falou, ‘tenho um ônibus aqui que você vai gostar demais da conta’. Aí eu falei, ‘mas agora a gente não pode mexer com isso, toma muito tempo, que ônibus que é?’ e ele não quis me falar. Fui no ferro velho e deparei com o Gabriela encostado num cantinho. Ele estava me contando a história desse ônibus que era do Atlético. O Atlético comprou ele zero quilômetro e toda a vida foi do Atlético. Transportou a seleção do Brasil em 86. Aí eu lembrei desse ônibus nos vídeos que eu já tinha visto de uma ‘Selegalo’, a seleção que o Atlético tinha, mas acabou que não deu em nada em 94. Fizeram as contratações caras na época e foi ilusão. E essa ‘Selegalo’ ficou na história. Então tem muito vídeo na internet, muita foto desse ônibus levando os jogadores de 94. Tinha muita gente famosa. Combinei com o senhor Fernando e eu sempre gostei desse modelo. Meu pai levava a gente para a escola num ônibus desse. Meu pai começou no escolar. Então eu sempre lembrei do Gabriela. Meus amigos que estudaram comigo, eu tenho contato até hoje. Eles iam para a escola com a gente no Gabriela. Depois no Amélia. Então a história com a Caio já é antiga na família Centauro. A gente negociou, deu tudo certo. Eu trouxe o ônibus aqui para a garagem. E estamos mexendo. Já demos uma lavada boa nele. Colocamos ele para rodar, que ele veio no guincho. Então a gente acertou umas coisinhas de funcionamento, de combustível e de freio. Ele já está rodando aqui no pátio. E vamos que vamos. Vamos levar e vamos reformar ele com a história, com as cores do Atlético. Do jeitinho que ele veio de fábrica. É um modelo muito raro, porque ele é rodoviário. Ele tem banco de rodoviário. Ele tem bagageiro para o estepe. Tem um bagageiro para pôr mala. Tem porta de ônibus rodoviário e porta embrulho. E é um Mercedes 1313. Modelo muito raro para o Gabriela. Então nós vamos fazer do jeitinho que ele saiu. Minas já tem a tradição de preservação de ônibus. Está de parabéns a equipe de Minas. A turma de Minas muito caprichosa. Destaque no Brasil inteiro. Então esse é mais um que a gente resgatou. Tiramos ele do desmanche. E vamos dar vida de novo para ele.” – se emociona, ao ver no ônibus também um pouco da história de seu pai e de sua vida. O que mostra que o veículo ônibus consegue ajudar a entender história da economia, da sociedade, das cidades, do desenvolvimento, da indústria, mas acima de tudo, traz um pouco da história de cada um. Afinal, ônibus é tudo para todos.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Colaborou Vinícius de Oliveira

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