Publicado em: 21 de março de 2026

Relatórios da ANTP indicam queda contínua da participação e mudança no comportamento de deslocamento
ALEXANDRE PELEGI
Os dados mais recentes do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana (SIMOB), da ANTP, referentes a 2023 e 2024, não mostram apenas uma recuperação pós-pandemia. Revelam algo mais profundo: a consolidação de um novo padrão de mobilidade no Brasil — menos coletivo, mais individual e estruturalmente mais ineficiente.
Depois de anos sem publicação, o retorno do SIMOB permite enxergar com clareza o tamanho da ruptura. E ela não é conjuntural. É estrutural.
A pandemia não foi um desvio — foi uma inflexão
O primeiro dado-chave está na comparação com 2019: o total de viagens caiu cerca de 16%, segundo o SIMOB 2023. Não se trata de uma oscilação cíclica, mas de uma mudança no comportamento da sociedade.
O mais relevante é a assimetria dessa queda:
- Transporte coletivo: -35%
- Transporte individual: +2%
- Modos não motorizados: -18%
Ou seja, a mobilidade não encolheu de forma homogênea — ela se reorganizou.
A pandemia acelerou tendências já latentes: digitalização, trabalho híbrido e maior autonomia individual nos deslocamentos.
2024 confirma: o sistema não volta ao que era
Os dados de 2024 reforçam essa leitura. Há leve crescimento no número total de viagens (+1,3%), chegando a 57,8 bilhões anuais, mas sem alterar o quadro estrutural .
O que cresce não é o sistema coletivo — é o individual:
- Transporte coletivo: praticamente estagnado (-0,2%)
- Transporte individual: crescimento consistente (+3,4%)
A mensagem é clara: a retomada da mobilidade está sendo capturada pelo transporte privado.
O colapso silencioso do transporte coletivo
Talvez o dado mais emblemático dos relatórios seja a mudança na divisão modal.
Em poucos anos:
- Transporte coletivo cai de 28% (2019) para cerca de 21–22% (2023/2024)
- Transporte individual sobe para cerca de 38–39%
Isso representa uma mudança estrutural no papel do transporte público nas cidades brasileiras.
O coletivo deixa de ser o eixo organizador da mobilidade e passa a ocupar uma posição secundária — especialmente fora dos grandes centros.
E há um agravante: a tendência não estabilizou. Ela continua.
Um sistema mais ineficiente — em todos os sentidos
Os relatórios mostram que o novo padrão é mais caro, mais lento e mais intensivo em energia.
Alguns indicadores sintetizam essa deterioração:
- O transporte coletivo responde por cerca de 21% das viagens, mas consome 36% do tempo total
- O automóvel, com cerca de 33% das viagens, consome 58% da energia
Esse desequilíbrio revela duas distorções:
- O transporte coletivo perdeu competitividade operacional
- O transporte individual impõe alto custo energético e ambiental
Ou seja, o sistema piora simultaneamente do ponto de vista do usuário e da sociedade.
A armadilha do automóvel se consolida
Outro ponto central é o avanço da motorização:
- Frota total próxima de 49 milhões de veículos em 2024
- Crescimento em relação a 2023
E mais importante do que o volume é o papel estrutural que o automóvel assume:
- Quase 49% das distâncias percorridas são feitas por transporte individual
Isso indica que o automóvel não é apenas complementar — ele volta a ser dominante.
Mobilidade menor, mais desigual e menos previsível
O índice de mobilidade (viagens por habitante/dia) praticamente não cresce:
- 1,34 (2023) → 1,35 (2024)
Isso sugere que:
- Parte das viagens desapareceu
- Outra parte foi substituída por alternativas digitais
- E o restante se redistribuiu entre modos
O resultado é uma mobilidade mais fragmentada, menos previsível e mais difícil de planejar.
O maior problema: estamos planejando com base no passado
Talvez o alerta mais importante do SIMOB não esteja nos números, mas na metodologia.
Os relatórios reconhecem que:
- Os modelos ainda se baseiam em padrões de 2014
- A pandemia alterou profundamente o comportamento
- Há aumento do grau de incerteza nos estudos
Ou seja, o Brasil está tomando decisões sobre mobilidade com base em um mundo que já não existe.
O que os dados indicam para o futuro
A leitura conjunta de 2023 e 2024 aponta para três cenários possíveis:
- Continuidade da perda do transporte coletivo
Sem intervenção, a tendência é de redução contínua de participação e relevância.
- Crescimento estrutural do transporte individual
Motocicletas e automóveis tendem a capturar a demanda residual.
- Pressão crescente sobre energia, emissões e espaço urbano
O modelo atual é insustentável no médio prazo.
Conclusão
Os relatórios do SIMOB não mostram uma crise passageira — mostram uma mudança de paradigma.
O transporte coletivo deixou de ser o organizador central da mobilidade urbana brasileira. E, no seu lugar, emerge um sistema mais individualizado, mais desigual e menos eficiente.
O desafio agora não é recuperar a demanda perdida, mas redefinir o papel do transporte público em um cenário onde ele já não é mais dominante.
Sem isso, o Brasil corre o risco de consolidar um modelo de mobilidade incompatível com suas cidades — e com seu futuro.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes