transporte coletivo perde espaço nas cidades brasileiras


Estamos caminhando para isso? Hoje, o crescimento da mobilidade está sendo puxado pelo transporte individual…

Relatórios da ANTP indicam queda contínua da participação e mudança no comportamento de deslocamento

ALEXANDRE PELEGI

Os dados mais recentes do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana (SIMOB), da ANTP, referentes a 2023 e 2024, não mostram apenas uma recuperação pós-pandemia. Revelam algo mais profundo: a consolidação de um novo padrão de mobilidade no Brasil — menos coletivo, mais individual e estruturalmente mais ineficiente.

Depois de anos sem publicação, o retorno do SIMOB permite enxergar com clareza o tamanho da ruptura. E ela não é conjuntural. É estrutural.

A pandemia não foi um desvio — foi uma inflexão

O primeiro dado-chave está na comparação com 2019: o total de viagens caiu cerca de 16%, segundo o SIMOB 2023. Não se trata de uma oscilação cíclica, mas de uma mudança no comportamento da sociedade.

O mais relevante é a assimetria dessa queda:

  • Transporte coletivo: -35%
  • Transporte individual: +2%
  • Modos não motorizados: -18%

Ou seja, a mobilidade não encolheu de forma homogênea — ela se reorganizou.

A pandemia acelerou tendências já latentes: digitalização, trabalho híbrido e maior autonomia individual nos deslocamentos.

2024 confirma: o sistema não volta ao que era

Os dados de 2024 reforçam essa leitura. Há leve crescimento no número total de viagens (+1,3%), chegando a 57,8 bilhões anuais, mas sem alterar o quadro estrutural .

O que cresce não é o sistema coletivo — é o individual:

  • Transporte coletivo: praticamente estagnado (-0,2%)
  • Transporte individual: crescimento consistente (+3,4%)

A mensagem é clara: a retomada da mobilidade está sendo capturada pelo transporte privado.

O colapso silencioso do transporte coletivo

Talvez o dado mais emblemático dos relatórios seja a mudança na divisão modal.

Em poucos anos:

  • Transporte coletivo cai de 28% (2019) para cerca de 21–22% (2023/2024)
  • Transporte individual sobe para cerca de 38–39%

Isso representa uma mudança estrutural no papel do transporte público nas cidades brasileiras.

O coletivo deixa de ser o eixo organizador da mobilidade e passa a ocupar uma posição secundária — especialmente fora dos grandes centros.

E há um agravante: a tendência não estabilizou. Ela continua.

Um sistema mais ineficiente — em todos os sentidos

Os relatórios mostram que o novo padrão é mais caro, mais lento e mais intensivo em energia.

Alguns indicadores sintetizam essa deterioração:

  • O transporte coletivo responde por cerca de 21% das viagens, mas consome 36% do tempo total
  • O automóvel, com cerca de 33% das viagens, consome 58% da energia

Esse desequilíbrio revela duas distorções:

  1. O transporte coletivo perdeu competitividade operacional
  2. O transporte individual impõe alto custo energético e ambiental

Ou seja, o sistema piora simultaneamente do ponto de vista do usuário e da sociedade.

A armadilha do automóvel se consolida

Outro ponto central é o avanço da motorização:

  • Frota total próxima de 49 milhões de veículos em 2024
  • Crescimento em relação a 2023

E mais importante do que o volume é o papel estrutural que o automóvel assume:

  • Quase 49% das distâncias percorridas são feitas por transporte individual

Isso indica que o automóvel não é apenas complementar — ele volta a ser dominante.

Mobilidade menor, mais desigual e menos previsível

O índice de mobilidade (viagens por habitante/dia) praticamente não cresce:

  • 1,34 (2023) → 1,35 (2024)

Isso sugere que:

  • Parte das viagens desapareceu
  • Outra parte foi substituída por alternativas digitais
  • E o restante se redistribuiu entre modos

O resultado é uma mobilidade mais fragmentada, menos previsível e mais difícil de planejar.

O maior problema: estamos planejando com base no passado

Talvez o alerta mais importante do SIMOB não esteja nos números, mas na metodologia.

Os relatórios reconhecem que:

  • Os modelos ainda se baseiam em padrões de 2014
  • A pandemia alterou profundamente o comportamento
  • Há aumento do grau de incerteza nos estudos

Ou seja, o Brasil está tomando decisões sobre mobilidade com base em um mundo que já não existe.

O que os dados indicam para o futuro

A leitura conjunta de 2023 e 2024 aponta para três cenários possíveis:

  1. Continuidade da perda do transporte coletivo

Sem intervenção, a tendência é de redução contínua de participação e relevância.

  1. Crescimento estrutural do transporte individual

Motocicletas e automóveis tendem a capturar a demanda residual.

  1. Pressão crescente sobre energia, emissões e espaço urbano

O modelo atual é insustentável no médio prazo.

Conclusão

Os relatórios do SIMOB não mostram uma crise passageira — mostram uma mudança de paradigma.

O transporte coletivo deixou de ser o organizador central da mobilidade urbana brasileira. E, no seu lugar, emerge um sistema mais individualizado, mais desigual e menos eficiente.

O desafio agora não é recuperar a demanda perdida, mas redefinir o papel do transporte público em um cenário onde ele já não é mais dominante.

Sem isso, o Brasil corre o risco de consolidar um modelo de mobilidade incompatível com suas cidades — e com seu futuro.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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