
Esta primeira coluna de 2026 traz aos leitores de VEJA e VEJA NEGÓCIOS algumas reflexões sobre bolhas envolvendo diversos ativos e a irracionalidade humana na busca da aplicação mais rentável, ou seja, a grande tacada! A Inteligência Artificial (IA) será a próxima bolha?
Ao longo da história, poucos ativos exerceram tanto fascínio quanto o ouro. Seu valor nunca esteve apenas na escassez ou na estética, mas na promessa silenciosa de segurança quando tudo ao redor parece instável. Peter L. Bernstein, em The Power of Gold, mostra que o ouro é menos um ativo financeiro e mais um fenômeno psicológico, um reflexo direto da dificuldade humana de lidar com a incerteza.
As bolhas financeiras nascem do extremo oposto. Elas surgem quando a confiança transborda. Não são produto da ignorância, mas da convicção coletiva de que o futuro será melhor, mais rápido e mais lucrativo do que o passado. Toda bolha carrega uma narrativa poderosa, quase sempre associada à inovação, ao progresso ou à promessa de prosperidade contínua.
Ouro e bolhas, portanto, não são opostos absolutos. São respostas emocionais distintas ao mesmo problema: a incerteza sobre o futuro. Bolhas prosperam quando acreditamos demais. O ouro sobe quando deixamos de acreditar.
Há quase quatro séculos, em 1637, a Holanda viveu o episódio que se tornaria o símbolo inaugural da especulação moderna: a mania das tulipas. A flor, recém-chegada do Império Otomano, transformou-se em artigo de luxo, objeto de desejo e de investimentos tão ousados que um único bulbo chegou a custar mais que uma casa em Amsterdã. Quando a confiança evaporou, em poucas semanas o mercado colapsou e fortunas desapareceram. A “Tulipomania”, mais que um capítulo histórico, inaugurou um padrão psicológico que acompanha os mercados até hoje.
O fascínio pelas bolhas está menos na flor exótica e mais em sua recorrência. De tempos em tempos, sociedades diferentes, em épocas distintas, embarcam na mesma combinação de entusiasmo, cegueira e esperança que eleva preços muito além dos fundamentos econômicos. Para entender o que são bolhas e por que continuam a surgir, é preciso revisitar sua definição técnica e sua lógica psicológica.
Em economia, uma bolha ocorre quando o preço de um ativo se distancia de seu valor fundamental e se mantém artificialmente elevado por um período significativo. Não se trata de uma simples alta ou volatilidade. Trata-se de um processo alimentado por expectativas sobre expectativas, na expressão clássica de Keynes. Preços sobem não porque os fundamentos melhoram, mas porque os investidores acreditam que outros investidores acreditam que os preços vão subir. É o beauty contest: vence não o ativo mais belo, mas aquele que todos imaginam que será considerado belo.
Importantes autores como Hyman Philip Minsky, em Stabilizing an Unstable Economy, descreveram a anatomia das bolhas em três etapas: euforia, alavancagem e fragilidade. Charles Kindleberger expandiu o modelo em cinco fases: deslocamento, euforia, mania, crise e desalavancagem. Já Robert Shiller, em Irrational Exuberance, mostrou que narrativas coletivas e contagiosas moldam expectativas e deslocam preços, criando ciclos de euforia que só se desfazem quando o enredo econômico deixa de sustentar a ficção.
Esses mecanismos aparecem repetidamente na história. A “bolha do Mississippi” (1720), conduzida por John Law na França, prometia riqueza infinita baseada em terras coloniais. No mesmo ano, a Inglaterra viveu a South Sea Bubble, que atingiu boa parte da aristocracia britânica — inclusive Isaac Newton, que perderia fortuna e concluiria: “Posso calcular o movimento dos astros, mas não a loucura dos homens”.
No século XIX, sucessivas bolhas ferroviárias inflaram expectativas de uma revolução logística que, embora real, não justificava simultaneamente todos os projetos. Já o século XX testemunhou o crash de 1929, marco da vulnerabilidade entre mercado financeiro e economia real.
A virada do século XXI trouxe episódios igualmente emblemáticos. A “bolha da internet”, em 1999–2000, elevou empresas sem lucro a avaliações astronômicas. Em 2008, a combinação de juros baixos, securitização excessiva e hipotecas de baixa qualidade desencadeou a mais grave crise financeira desde 1929. Mais recentemente, surgiram narrativas potencialmente infladas em torno de criptomoedas, do mercado imobiliário chinês, de ações impulsionadas por fóruns digitais e até de certas teses de investimento em ESG.
Mas talvez o elemento mais intrigante das bolhas seja este: investidores experientes e inteligentes raramente as reconhecem enquanto elas estão se formando. A psicologia financeira oferece respostas convincentes. O cérebro humano opera sob vieses profundos que se intensificam na euforia: o viés de confirmação leva a buscar apenas informações que reforcem a narrativa dominante; o “efeito manada” transforma comportamento coletivo em justificativa; o excesso de confiança cria a ilusão de controle; e a dissonância cognitiva faz com que até fatos contrários sejam reinterpretados para preservar a crença no otimismo.
Além disso, há o chamado “viés de loteria”: a superestimação de ganhos improváveis diante da pequena chance de um retorno extraordinário. Histórias de enriquecimento repentino ganham visibilidade desproporcional nas redes sociais. Em termos comportamentais, bolhas são sistemas de coordenação imperfeita.
Machado de Assis resumiu esse mecanismo com precisão literária e econômica:“A ocasião fez o furto, a esperança o disfarçou.”Nas bolhas, a esperança disfarça o risco e transforma análises frágeis em convicções sofisticadas.
Quando a bolha estoura, entra em cena outro ator: o regulador. A história mostra que, após cada crise, ajustes institucionais tentam impedir que o passado se repita. Depois de 1929, vieram a criação da SEC (a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos) e o Glass–Steagall Act (medida que, em 1932, autorizou o banco central americano a expandir empréstimos para combater a Grande Depressão). Após 2008, surgiram o Dodd–Frank (uma reforma do sistema financeiro promovendo prestação de contas e responsabilização), testes de estresse, exigências de capital reforçadas e transparência obrigatória na securitização. Na Europa, crises levaram ao MiFID (regulação para ampliar a transparência e a integração dos mercados financeiros), Basileia III (novas regras para os bancos) e reformas de supervisão bancária.
Mas há um paradoxo: a regulação quase sempre olha pelo retrovisor, combate a última crise e raramente antecipa a próxima. A inovação financeira, a liquidez global e a psicologia humana se movimentam em velocidade muito superior à da burocracia. Reguladores reduzem danos — mas não eliminam a essência das bolhas, porque elas nascem menos de falhas de regras e mais de falhas de percepção coletiva.
É nesse contexto que surge a pergunta inevitável: estamos vivendo uma bolha de Inteligência Artificial?
Há sinais em ambas as direções. De um lado, múltiplos elevados, narrativas grandiosas, fluxos extraordinários de capital e assimetrias informacionais. A promessa de transformações radicais em produtividade, energia e ciência cria um campo fértil para projeções que dificilmente resistem aos testes de realidade.
Por outro lado, a IA, ao contrário das empresas sem lucro da bolha da internet, já está entregando valor concreto. Há ganhos reais em logística, saúde, pesquisa, finanças e engenharia. Empresas líderes registram receitas robustas, margens elevadas e aplicações práticas. A demanda por chips e infraestrutura não parece apenas especulativa, parece estrutural.
Talvez estejamos diante de uma bolha racional. Talvez diante de uma revolução subestimada. Ou talvez diante de uma exuberância típica de períodos de inovação. A linha entre revolução e bolha é tênue e só se revela plenamente no retrovisor.
Toda bolha financeira carrega um elemento narrativo que vai além dos números. Ela não se sustenta apenas por juros baixos, inovação ou liquidez abundante, mas pela capacidade de contar uma história convincente sobre o futuro. É nesse ponto que economia e literatura se encontram.
As bolhas não são acidentes históricos. São episódios recorrentes de um mercado que, em busca de retornos extraordinários, se deixa conduzir por histórias extraordinárias demais. Reconhecê-las não exige ceticismo radical, mas humildade intelectual: aceitar que, mesmo em tempos de inovação genuína, as leis da economia continuam a valer.
No fim, talvez a melhor defesa contra as bolhas não esteja em prever o próximo colapso, mas em resistir à tentação de acreditar que desta vez estamos fora da história.
- S. Lewis, o irlandês autor de “As Crônicas de Nárnia”, observou que o ser humano tende a confundir desejo com realidade quando projeta o amanhã. Outro grande escritor, o britânico J. R. R. Tolkien (de “O Senhor dos Anéis”), mostrou como a promessa de poder absoluto corrói a prudência. As grandes bolhas da história — das tulipas à internet, do mercado imobiliário à atual discussão sobre Inteligência Artificial — compartilham este traço comum: a transformação de uma inovação real em um mito financeiro.