Um OnlyFans focado em IA. Sim, isso existe (e fatura alto)

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Parece meio maluco pensar que tem gente que paga para ver conteúdo adulto de personagens que não são gente de verdade – falamos outro dia sobre IAs do job, lembra? Digo isso com zero moralismo, apenas espantado com a capacidade humana de criar conexões simbólicas mesmo. E, mais espantado ainda, de contar para você que esse formato tem se consolidado como um negócio que movimenta MUITA grana.

Eu me refiro a uma plataforma britânica chamada Fanvue, de conteúdo por assinatura, que recentemente decidiu colocar personagens de IA como o centro de sua estratégia. Desse modo, foi na contramão de seus rivais (OnlyFans e Fansly), que impõem limites mais delineados quando ao uso de inteligência artificial. O resultado veio rápido: mais de US$ 100 milhões em receita anual, 17 milhões de usuários ativos por mês e uma rodada recente de US$ 22 milhões em investimentos.

Criada em Londres, em 2020, a Fanvue nasceu como mais um serviço de monetização direta entre influenciadores e seus fãs. A virada aconteceu quando seus fundadores perceberam que havia um grupo crescente de creators interessados em explorar ferramentas de IA para gerar imagens, vídeos, mensagens e avatares inteiros, mas que encontrava barreiras nas plataformas tradicionais. Em vez de bloquear esse movimento, a empresa decidiu incentivá-lo.

A partir daí, passou a integrar cada vez mais recursos de inteligência artificial diretamente no funcionamento do serviço. Hoje, os clientes conseguem automatizar respostas para fãs, gerar mensagens de voz sintéticas, receber análises de desempenho baseadas em dados e usar ferramentas externas de geração de conteúdo dentro da própria plataforma.

IA também como estrutura diária da operação

A Fanvue ganha dinheiro principalmente com a mesma lógica das grandes plataformas de assinatura: fica com uma comissão sobre tudo o que seus clientes faturam. Os criadores definem valores mensais pelo serviço, vendem conteúdos exclusivos avulsos e recebem gorjetas de fãs, enquanto a plataforma retém uma porcentagem dessas transações como taxa de serviço.

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Na plataforma existem também gente de verdade, e não necessariamente focada em conteúdo adulto, cabe explicar. Mas o foco do negócio passou a ser direcionado para IA, o que inclui tanto personagens 100% “nascidos” de modelos generativos quanto de ferramentas e recursos tecnológicos à disposição dos creators.

Com isso, 93% dos perfis da Fanvue utilizam algum recurso de IA no dia a dia. Cerca de 15% deles nem sequer existem fora do ambiente digital. São influencers totalmente artificiais, criados por algoritmos, que publicam conteúdo, conversam com assinantes e faturam como qualquer outro perfil.

É o que falei ali em cima: o ser humano e suas surpresas. Tudo bem que, historicamente, sempre existiram formatos de conteúdo adulto criativos, com uso de diferentes modalidades de desenho, animação, cartoon e afins.

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Mas, nesse caso, estamos falando de gente que se torna fã de um personagem de IA, que constrói relacionamentos, coisa duradoura. Avatares hiper-realistas acumulam seguidores, vendem assinaturas mensais e constroem narrativas próprias, muitas vezes sem deixar claro para o público que não há uma pessoa real por trás da conta (e eu acho que quem é fã não dá muita bola para essa info, na real).

As definições de autenticidade foram atualizadas

O crescimento acelerado da Fanvue não é só uma curiosidade sobre tecnologia ou conteúdo adulto. Ele mostra como a creator economy tem se reorganizado em torno da inteligência artificial. Até pouco tempo atrás, monetizar audiência dependia quase exclusivamente de presença humana constante: produzir posts, responder mensagens, manter engajamento diário.

Com IA integrada, esse trabalho pode ser automatizado em larga escala. Um creator consegue interagir com milhares de fãs simultaneamente, gerar conteúdo contínuo e otimizar ganhos com base em dados. Não à toa, fundos de tecnologia estão apostando que essa “economia de criadores com IA” pode se tornar um mercado de centenas de bilhões de dólares até o fim da década.

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Talvez o ponto mais provocador dessa história esteja na filosofia da empresa. Para a Fanvue, originalidade não precisa estar ligada à presença humana. Um avatar criado por IA pode ser tão “original” quanto uma pessoa real, desde que ofereça uma experiência que o público valorize e esteja disposto a pagar.

Se antes autenticidade era sinônimo de alguém real do outro lado da tela, agora passa a ser sinônimo de engajamento, narrativa e capacidade de gerar conexão — mesmo que tudo isso seja produzido por código.

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