Protestos no Irã: Corpos são empilhados em necrotérios improvisados no país

Iranianos gritavam e choravam de angústia enquanto se reuniam ao lado de pilhas de corpos envoltos em sacos pretos em um necrotério improvisado no Centro Médico Forense de Kahrizak e em outros corpos espalhados pelo chão do lado de fora da instalação, ao sul de Teerã.

Vídeos que circulavam durante o fim de semana, burlando o bloqueio da internet no Irã, revelaram cenas terríveis.

Pessoas tentavam identificar entes queridos entre dezenas de corpos em salas e no chão do lado de fora do centro forense — vítimas da mais recente onda de repressão violenta contra os protestos no Irã.

As manifestações antigovernamentais em massa, desencadeadas pela deterioração das condições econômicas, tomaram conta do país, representando o maior desafio para o regime iraniano em anos.

Um vídeo obtido pela CNN, gravado no centro forense, mostra sacos pretos para cadáveres enfileirados em uma passarela do lado de fora do prédio, com pessoas ao redor. Alguns corpos estão espalhados pelo que parece ser o pátio do centro.

Outros jazem em terreno irregular. Alguns estão a poucos metros de carros estacionados, enquanto famílias buscam freneticamente pelos restos mortais de entes queridos.

O grupo ativista Mamlekate afirmou no sábado (10) que o número de corpos levados ao instituto forense é tão alto que eles estão sendo enfileirados no pátio.

Outro vídeo, gravado na sexta-feira (9), mostra o interior de um galpão próximo ao centro forense. A sala, transformada em um necrotério improvisado, está repleta de corpos em sacos pretos, enfileirados no chão e sobre mesas de metal.

A mídia estatal iraniana reconheceu as cenas macabras na unidade médica, mas insistiu que os corpos vistos são, em sua maioria, de “pessoas comuns” — transeuntes que foram arrastados para os protestos e atribuiu as mortes a “manifestantes violentos”.

Forte repressão

A agência de notícias estatal Tasnim e a agência de notícias estudantil publicaram um vídeo com cenas das proximidades do centro forense. O repórter da mídia estatal afirma que esteve no escritório do médico legista e conversou com familiares.

O vídeo mostra suas conversas com pessoas enlutadas que lhe dizem que seus parentes não eram manifestantes e não tinham intenção de protestar.

Os relatos refletem um esforço do governo iraniano para culpar os manifestantes pela violência no país e alertar outros para que não se juntem aos protestos.

Considerando o histórico de violenta repressão por parte das forças de segurança do Estado iraniano e os relatos que vêm surgindo do país nos últimos dias, grupos de direitos humanos afirmam que as evidências superam qualquer narrativa contrária apresentada pelo governo.

As autoridades iranianas são responsáveis ​​pelas mortes e ferimentos de pessoas que estavam no local dos protestos, afirmou Michael Page, vice-diretor da divisão do Oriente Médio e Norte da África da Human Rights Watch.

O governo iraniano alertou os cidadãos para que não se juntem a “manifestantes violentos e terroristas” e a “mercenários” apoiados por estrangeiros nos protestos em todo o Irã.

O presidente Masoud Pezeshkian, no domingo (11), diferenciou entre pessoas que protestam pacificamente e “manifestantes violentos” que pretendem “desestabilizar toda a sociedade”.

O procurador-geral do Irã prometeu tomar medidas legais implacáveis ​​contra estes últimos, incluindo a pena de morte.

Mas as autoridades iranianas nunca fizeram uma distinção clara entre manifestantes e “vândalos”, disse Page. “Elas trataram qualquer tipo de protesto em larga escala como uma ameaça ao seu governo e usaram a força de acordo com essa visão.”

O governo iraniano defende a conduta de suas forças de segurança. O ministro do Interior, Eskandar Momeni, disse à televisão estatal no sábado (10) que, “até certo ponto”, os agentes de segurança “exercem a máxima contenção” para evitar danos aos cidadãos.

Mas relatos de testemunhas oculares e grupos de direitos humanos pintam um quadro diferente. Pessoas no local disseram à CNN que as forças de segurança iranianas responderam aos protestos com violência.

Mais de 500 pessoas, incluindo nove menores de idade, foram mortos e mais de 10 mil foram presos desde o início dos protestos no final de dezembro, segundo o HRANA, grupo de direitos humanos sediado nos Estados Unidos.

Mas, devido ao bloqueio da internet imposto pelo governo e à lenta divulgação de informações vindas do Irã, a dimensão total das vítimas permanece incerta.

A CNN não conseguiu verificar de forma independente esses números, nem os divulgados pela mídia estatal iraniana, que afirmam que mais de 100 membros das forças de segurança do Irã foram mortos.

Enquanto o país entra no sexto dia de seu bloqueio de internet, os poucos vislumbres oferecidos por vídeos pintam um quadro sombrio da verdadeira extensão do custo humano das manifestações.

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