
Ferramentas de inteligência artificial podem ser grandes aliadas da saúde, como você teve chance de perceber em alguns dos temas abordados na coluna. Contei, por exemplo, que a tecnologia pode diagnosticar diabetes a partir de áudios de uma pessoa, lembra? E também que as máquinas high tech entram em cena para ajudar até mesmo fetos.
Hoje eu trouxe um caso que tem rolado aqui no Brasil. Mais especificamente em Recife, espetacular capital do não menos espetacular estado de Pernambuco, onde uma iniciativa botou a IA para trabalhar na busca por pacientes com fibrilação atrial.
Eu sei, você franziu a testa, mas tudo bem: fibrilação atrial é um tipo de arritmia cardíaca. E, do mesmo modo que algumas duplas populares do imaginário andam juntas com frequência – fogueira e brasa, queijo e goiabada, circo e palhaço, por exemplo – esse distúrbio nas batidas do coração pode ser um indicador de que a pessoa corre risco de ter um acidente vascular cerebral, o infame AVC, que a gente menciona popularmente de derrame.
Como a arritmia pode causar AVC
Para ser mais preciso, cerca de 20% dos AVCs isquêmicos acontecem por causa da fibrilação atrial, que é o que muitas reportagens (esta aqui, inclusive) chamam de inimigo silencioso. “O paciente não sente nada, mas o coração está batendo de forma irregular”, explica a cardiologista Tieta Albanez, de Recife.
Pedi a luz de Tieta não só devido a sua especialidade médica mas porque ela lidera lá na cidade pernambucana a implantação do projeto de IA que você viu ali em cima, no título. Primeiro, aprendi com ela o que a arritmia tem a ver com o derrame.
Acontece o seguinte: a fibrilação faz o coração bombear o sangue com menos eficiência, o que favorece acúmulo de pequenas quantidades desse líquido tão precioso no átrio esquerdo – veja só, e você achando que nessa parte do coração só dava para guardar amigos.
Com isso, formam-se coágulos (os trombos), que muitas vezes não detonam nem um sintoma sequer, mas que correm o risco de se soltar e passar a circular pelo corpo. Ao chegar às artérias cerebrais, eles podem entupir um vaso sanguíneo, interrompendo o fluxo de oxigênio para parte do cérebro – isquemia é a redução ou interrupção do fluxo sanguíneo para um tecido.
Certo, mas o que a IA tem a ver com isso, colunista?
Eu sei que demorei a falar dela, mas você há de reconhecer que até agora aprendeu várias coisas importantes para a sua saúde, vai!
Inteligências artificiais são muito competentes para detectar padrões que podem passar despercebidos aos olhos humanos. Isso vale para muitos exames médicos, e é aqui que o ritmo acelerado da tecnologia encontra o descompasso da arritmia: os algoritmos conseguem perceber melhor que profissionais de carne e osso casos de fibrilação atrial.
“O diagnóstico é pelo eletrocardiograma, mas nem todo médico se sente seguro para interpretar o traçado”, diz a cardiologista Tieta. Estimativas usadas no projeto indicam que cerca de 84% dos médicos relatam desconforto ao analisar um ECG, o que talvez explique por que tantos casos de fibrilação atrial deixam de ser identificados.
A proposta em Recife foi usar a inteligência artificial para atacar exatamente esse ponto. Com nove algoritmos clínicos, a plataforma Kardia, de uma empresa chamada Neomed, analisa cada eletrocardiograma em cerca de sete segundos (você leu certo, é bem rápido mesmo) e gera um laudo preliminar. “A tecnologia dá o laudo. O médico confirma”, resume a doutora. Depois da análise automática, os exames passam por validação de especialistas remotos, alertas são enviados às equipes e o sistema já sugere condutas clínicas, integrando tudo ao fluxo hospitalar.
Quase 4 mil eletrocardiogramas analisados
Entre outubro de 2024 e abril de 2025, foram realizados 3.933 eletrocardiogramas com apoio da plataforma em hospitais da rede privada de Recife. Desse total, 48 casos de fibrilação atrial foram identificados. “A gente aumentou muito o diagnóstico dessa arritmia, que antes passava despercebida”, afirma Tieta.
Detectar a fibrilação atrial cedo muda completamente o tratamento. Em muitos casos, a proteção contra o AVC vem do uso de anticoagulantes, medicamentos que afinam o sangue e reduzem a formação de coágulos. O problema é que nem todos os pacientes podem usá-los. “Alguns têm sangramentos, risco de hemorragia, e não podem tomar anticoagulante.”
É aí que entra a segunda frente do projeto, em parceria com a empresa de tecnologia médica Boston Scientific: um implante chamado Watchman FLX. É um dispositivo minimamente invasivo que fecha a região do coração onde os coágulos costumam se formar em pacientes com fibrilação atrial. “Ele funciona como uma rolha. Isola esse local do coração e impede a formação do trombo.”
Dos pacientes diagnosticados no projeto em Recife, seis já receberam o implante. O procedimento é feito por cateter, com risco considerado muito baixo.
Na minha conversa com a cardiologista, questionei se 48 pessoas diagnosticadas não era um número baixo. E ela me respondeu, coberta de razão, que mesmo quando a arritmia não é detectada, o paciente se beneficia, o que vale para os outros pacientes do estudo. Saber que você NÃO TEM fibrilação atrial é ainda melhor do que o resultado contrário, é ou não é?