Futuros Divergentes

O Brasil parece viver uma contradição permanente: parece reconhecer a importância da Educação como direito humano fundamental e um motor essencial para o desenvolvimento pessoal e social, mas não demonstra urgência em resolver como garanti-lo. A cada nova pesquisa, o diagnóstico se repete com pequenas variações, como um boletim escolar que nunca melhora de verdade. O Ipsos Education Monitor 2025, levantamento realizado em 30 países, escancara essa realidade: apenas 31% dos brasileiros avaliam positivamente o sistema de ensino do país, abaixo da média global de 34%. É uma nota que não chega a reprovar, mas também não aprova ninguém.

A persistência dos mesmos entraves mostra que a educação brasileira não sofre de falta de diagnóstico, sofre de paralisia. Quando perguntados sobre os principais desafios, os brasileiros apontam a falta de financiamento público (34%), a precariedade da infraestrutura (29%), a formação insuficiente dos professores (20%) e um currículo desatualizado (10%). São respostas que traduzem problemas óbvios, básicos – e inegáveis. Revelam não apenas as deficiências do sistema, mas também a falta de inovação estrutural. Em países com melhor desempenho, como Coreia do Sul ou Japão, o debate já migrou para o futuro — como integrar inteligência artificial à aprendizagem. No Brasil, ainda se discute o básico: como manter escolas minimamente funcionais, professores motivados e estudantes interessados.

É aqui que a comparação global fica ainda mais reveladora. Os dados da pesquisa Is Life Getting Better? mostram que países asiáticos, especialmente Coreia do Sul, Singapura e Japão, são os que mais acreditam que a educação está melhor hoje do que em 1975. A Coreia, por exemplo, aparece no extremo da lista como uma das nações mais confiantes na melhoria do sistema, enquanto boa parte da Europa ocupa o polo oposto, nostálgica de um passado supostamente mais eficiente. É um padrão consistente: a Ásia olha para frente; o Ocidente para trás. 

Há, porém, um fator mais silencioso e corrosivo: a desigualdade de acesso. O relatório mostra que esse é um dos temas mais críticos globalmente, e que no Brasil reflete um problema estrutural que o sistema educacional ainda não conseguiu corrigir. O CEP continua sendo o maior determinante da qualidade do ensino, e o resultado é um sistema que instrui pouco, reproduz muito e raramente se reinventa.

Enquanto isso, os jovens, que deveriam ser o centro do debate, vivem outra crise, menos mensurável, mas cada vez mais urgente. Para 40% dos brasileiros, o maior desafio da juventude é pobreza e desigualdade, seguido pela má qualidade do ensino (31%) e por questões de saúde mental e bullying (30%). Globalmente, a saúde mental é o tema mais citado (33%), à frente de temas como economia, bullying e violência. A Ipsos observa um fenômeno que extrapola os muros da escola: a geração que mais fala sobre saúde mental é também a que menos encontra suporte para lidar com ela.

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O estudo cita que, em média, 53% da população mundial avalia como “pobre” a saúde mental dos jovens, e no Brasil, essa percepção é ainda mais crítica (63%). Trata-se de uma geração que tenta aprender em meio a um colapso de referências — pressionada por resultados, sufocada pela insegurança e sobrecarregada por um sistema que não conversa com suas ansiedades.

O tema da tecnologia, aliás, se tornou uma espécie de divisor de gerações e de mentalidades. No Brasil, 62% da população é favorável a proibir o uso de smartphones nas escolas, e 69% defendem o banimento do acesso de menores de 14 anos às redes sociais. É uma maioria significativa num país acostumado à polarização. O argumento é compreensível: proteger crianças da distração e da dependência digital. Mas talvez a pergunta devesse ser outra, em vez de proibir o celular, por que não aprender a usá-lo?

O problema não é a ferramenta, e sim a falta de um projeto que integre o digital de forma inteligente e crítica ao processo educativo. Enquanto países asiáticos, como Coreia do Sul, Japão e Singapura, avançam na integração da tecnologia e da inteligência artificial como aliadas da personalização do ensino, o Brasil ainda hesita entre a desconfiança e a inércia. O debate por aqui segue travado entre o medo da exposição e o receio da obsolescência, sem uma estratégia clara para transformar o digital em motor de aprendizagem.

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E não se trata apenas de um discurso futurista: a Coreia, por exemplo, vem tentando implementar seu programa nacional de AI Digital Textbooks. A iniciativa enfrenta desafios — professores e alunos relataram dificuldades técnicas e baixa usabilidade nos testes iniciais —, mas ela revela algo fundamental: o país já está discutindo como integrar IA e sistemas adaptativos ao currículo, enquanto nós ainda debatemos se a tecnologia deve ou não entrar na sala de aula. Mesmo com tropeços, a Coreia permanece vários passos à frente na ambição e na escala da política pública digital. 

A comparação com Europa e Estados Unidos ajuda a entender o contexto. Nessas regiões, o debate atual gira menos em torno de infraestrutura (um problema resolvido há décadas) e mais em torno de impactos sociais: saúde mental, excesso de telas, riscos de IA generativa e proteção da infância. Já o Brasil está num outro estágio histórico – preocupado com o chão da escola, a desigualdade no acesso e as condições básicas de ensino. Cada região enfrenta um capítulo diferente do mesmo livro, mas algumas estão escrevendo páginas novas enquanto outras seguem revisando as antigas. 

Essa relação ambígua com o digital revela algo mais profundo: nossa dificuldade em atualizar a própria ideia de “educar”. A escola brasileira ainda opera sob a lógica da transmissão, como se conhecimento fosse um estoque a ser entregue, e não um processo a ser construído. Só que o mundo mudou. As linguagens mudaram. Os alunos mudaram. Só o sistema insiste em continuar igual.

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O resultado é um círculo vicioso: professores desmotivados, alunos exaustos e uma sociedade que segue cobrando resultados de um modelo que não entrega. No fim das contas, sobra para os estudantes a tarefa mais pesada, aprender apesar do sistema. E fazem isso enquanto o país ainda debate o básico: se deve ou não permitir celulares, se deve ou não confiar na IA, se deve ou não investir mais em professores.

Enquanto boa parte da Ásia avança para a próxima etapa (personalização, IA, análise de dados, ecossistemas tecnológicos), nós seguimos tentando resolver questões do século passado. Não se trata de replicar a Coreia, mas de aprender com o fato de que eles só conseguiram chegar a esse ponto porque já resolveram o alicerce. Para reinventar a educação, é preciso antes garantir que ela exista de maneira plena, acessível e equitativa. O Brasil ainda não chegou lá, e essa talvez seja a lição que seguimos adiando. É hora de tornar o tema prioritário.

*Marcos Calliari é CEO da Ipsos no Brasil

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