Com a chegada do verão, é comum que as pessoas passem mais tempo na praia ou na piscina, usando biquínis e roupas leves. Tudo isso deixa o corpo mais exposto e, consequentemente, algumas inseguranças também. Nesta época do ano, a pressão por um “corpo perfeito” pode aumentar e desencadear (ou piorar) problemas de imagem e de saúde mental.
Para a psicanalista e psicóloga Fabiana Guntovitch, a maior exposição do corpo influenciada pelo verão pode funcionar como um holofote para detalhes que trazem insegurança. No entanto, campanhas publicitárias e redes sociais podem exercer um papel importante na pressão estética comum na estação.
“Não é o verão em si que cria o problema; ele apenas amplifica conflitos e dores que já existiam tanto na sociedade quanto internamente, dentro de cada um de nós”, explica Guntovitch à CNN Brasil. “O resultado é um aumento de comparação, vergonha corporal e sensação de inadequação.”
Isso pode ser, inclusive, gatilho para piora em sintomas de transtornos alimentares e de imagem, como a dismorfia corporal. É o caso de restrição alimentar, compulsão, uso abusivo de exercícios, checagem excessiva diante do espelho ou, ao contrário, evitar espelhos, fotos, praia e situações sociais por vergonha.
“Quem tem transtorno alimentar ou dismorfia corporal costuma ter uma relação muito rígida e dolorosa com o próprio corpo. No verão, o aumento da exposição, dos comentários, das fotos em grupo e da comparação nas redes sociais intensifica o foco na aparência”, afirma a psicanalista.
Por isso, essa época pede cuidado redobrado com quem já tem diagnóstico ou sinais importantes de sofrimento. A especialista reforça a importância de manter o acompanhamento com psiquiatra e psicoterapia.
Como evitar a piora nos sintomas de transtornos alimentares e de imagem durante o verão?
Segundo Guntovitch, algumas estratégias podem ajudar a evitar a piora de transtornos alimentares e de imagem durante o verão, como:
- Combinar previamente, em terapia, um “plano de cuidados” para esse período;
- Limitar o tempo de exposição a conteúdos gatilho nas redes sociais;
- Evitar dietas restritivas e metas estéticas radicais para “correr atrás do prejuízo”;
- Priorizar atividades que conectem a pessoa à experiência do verão (conviver, relaxar, estar na água, sentir prazer), e não apenas à aparência;
- Envolver a família ou amigos próximos como rede de apoio, para observar sinais de piora.
“Quando há qualquer indício de agravamento — perda de peso rápida, isolamento, comportamentos compensatórios, sofrimento intenso com a própria imagem — é essencial buscar ajuda profissional quanto antes”, afirma a psicanalista.
Quando a preocupação com a estética e o corpo passa a ser preocupante?
Cuidar do corpo, da alimentação e buscar melhores resultados estéticos na academia ou com procedimentos pode ser saudável quando feito com equilíbrio e consciência. De acordo com a especialista, o limite entre o autocuidado e a preocupação excessiva com o “corpo perfeito” está em três critérios: flexibilidade, finalidade e impacto na vida.
“Flexibilidade diz respeito ao cuidado saudável com ajustes. A pessoa consegue viajar, sair para comer com amigos, descansar um dia sem se sentir em colapso ou fracasso. Quando tudo vira rígido, inflexível e cheio de regras, acende um sinal de alerta”, afirma Guntovitch.
Já a finalidade está relacionada ao objetivo com as práticas adotadas. “Treinar e se alimentar bem para ter mais energia, saúde e bem-estar é diferente de fazer tudo isso exclusivamente para caber num padrão ou evitar rejeição. Quando a finalidade é apenas estética e voltada ao olhar do outro, há risco maior de adoecimento”, exemplifica.
Por fim, o impacto na vida diz respeito a como esse cuidado interfere no cotidiano e no bem-estar geral. “Se o cuidado com o corpo amplia a vida — mais disposição, mais prazer, mais autonomia — é um bom sinal. Se ele começa a encolher a vida — isolamento, culpa, medo de engordar, medo de envelhecer, perda de espontaneidade — estamos diante de um excesso”, afirma.
Sinais de alerta para a preocupação excessiva e possíveis transtornos psicológicos relacionados ao cuidado com o corpo incluem:
- Evitar situações sociais (praia, piscina, eventos) por vergonha do corpo;
- Rotina baseada, quase exclusivamente, em dieta, treino e checagem do corpo;
- Pequenos “desvios” da rotina que geram culpa intensa, vergonha ou punições (como exercícios exaustivos ou jejum);
- Prejuízo em outras áreas da vida: trabalho, estudo, relações afetivas, vida sexual, lazer;
- Autoimagem que não corresponde à realidade — a pessoa se vê sempre “errada”, “grande demais”, “deformada”, mesmo sem isso aparecer para ninguém mais.
“Nesse ponto, já não estamos falando de vaidade, e sim de um quadro que merece atenção clínica”, alerta Guntovitch.
Como cultivar uma relação mais saudável com o corpo?
Segundo a psicanalista, a relação saudável com o corpo precisa estar apoiada em pilares como:
- Realidade: aceitar que corpos reais não são perfeitos e nem precisam ser;
- Funcionalidade: valorizar o que o corpo faz, e não só como ele se apresenta;
- Cuidado sem culpa: alimentação, movimento e descanso como formas de respeito, não de punição;
- Estimular um diálogo interno gentil sobre o próprio corpo;
- Amor próprio: como nos sentimos em relação a nós mesmos passa por como nos sentimos dentro do nosso corpo. Explorar essa relação com generosidade e afeto é importantíssimo.