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Primeiro a gente se acostumou a perguntar um monte de coisas para as ferramentas de inteligência artificial. O passo seguinte foi confiar a essas máquinas a execução de uma série de tarefas, momento em que o mundo entrou na era dos agentes de IA.
Você provavelmente já ouviu falar a respeito, porque a ideia ganhou muita visibilidade nos últimos anos. Porém, costumava aparecer ligada mais a ambientes corporativos. Aos poucos, começa a ganhar força na rotina das pessoas também fora do escritório.
Agentes de IA são programas que recebem um objetivo e passam a executar tarefas digitais por conta própria, usando inteligência artificial para decidir os próximos passos.
Tem quem os confunda com o Gemini, o ChatGPT ou outros chatbots, mas a diferença é clara: mais do que apenas responder, os agentes acessam ferramentas, cruzam informações e realizam ações em sequência. Na prática, funcionam como assistentes digitais que trabalham nos bastidores, sempre dentro de regras definidas por humanos.
Conversei sobre o tema com Adriano Picchi Neves, presidente da Avanade Brasil, executivo que acompanha o uso dos agentes no mundo empresarial e experimenta alguns deles também em sua rotina pessoal.
VEJA: Como explicar agentes de IA para pessoas que pouco entendem de tecnologia?
Adriano Picchi Neves: São algoritmos que, quase como se fossem pessoas, executam uma atividade ou processo inteiro no seu lugar. O usuário determina uma série de regras, e os agentes se encarregam de executar parte do processo ou assumem ele por completo.
De que tipos de tarefas do dia a dia estamos falando?
Já existe o básico, como a gestão de e-mail e agenda. Parece simples, mas leva tempo até todos entenderem e usarem. Hoje, ferramentas como a da Microsoft ou outras do mercado conseguem fazer uma análise rápida dos e-mails, identificar o que é prioritário e até sugerir respostas. Seu agente pode olhar seus compromissos e, com base em critérios que você define, dizer se você está alinhado ou não com seus objetivos. Por exemplo, se precisa focar mais em reuniões com o time ou com clientes.
Essa economia de tempo seria a principal razão pela qual, num futuro próximo, qualquer pessoa terá um agente de IA?
É uma parte, principalmente para eliminar aquelas tarefas operacionais chatas, como pagar contas, conferir aluguel ou pedir reembolso médico. Isso devolve tempo para a família e amigos. Mas existem outros motivos. O segundo é que o agente pode funcionar como um tutor que te ajuda a aprender muito mais rápido e a se manter atualizado nessa turbulência de novas informações. O terceiro ponto é a criatividade. Sou um defensor de que a IA permite ser mais criativo, desde que você saiba dosar. Ela ajuda a extrair suas ideias e estruturá-las. Em 20 ou 30 minutos, consigo transformar uma ideia vaga em algo estruturado, seja para um projeto de trabalho, uma viagem ou uma festa, conectando pontos que talvez eu não visse sozinho.
Costumo dizer aos meus alunos de pós-graduação que não é para colocar a IA para fazer “por você”, mas sim “com você”. Como vê esse equilíbrio?
As pessoas tendem a delegar tudo no início, mas a maturidade no uso da ferramenta vem de atuar em parceria com o agente. Eu já cometi esse erro. Logo no começo, pedi para uma IA gerar um relatório financeiro importante, confiei e enviei sem revisar direito. Depois vi que os números estavam errados, que a IA de texto não era boa de conta na época. Foi um aprendizado: tudo o que é importante precisa ser revisado. Além disso, se você apenas delega o final do processo, a IA pode seguir um caminho que você não imaginava e o resultado não serve para nada. Hoje eu trabalho junto: faço um rascunho, peço para ela revisar, leio, ajusto, peço para refazer um trecho. É um processo de “vai e vem”.
Você imagina um futuro em que teremos um agente para cada situação (trabalho, pessoal, condomínio) ou um “super agente” que atue em todas as instâncias da vida?
As pessoas prefeririam um agente único, centralizado, pela facilidade. Mas, no mercado corporativo, isso dificilmente será possível por questões de governança, segurança e privacidade de dados. As empresas vão separar o ambiente profissional do pessoal. No lado pessoal, talvez surja uma IA que integre serviços básicos — restaurante, viagens, aéreo, celular. Eu procuro sempre por assistentes pessoais digitais mais completos. Comprei recentemente um dispositivo chamado Bee, um wearable que tem uma função ativa (você aperta para falar/gravar) e uma passiva, onde ele escuta o dia e, no final, faz um resumo, lembrando que você precisa marcar aquele jantar com a família ou enviar um contrato. Ele vai te conhecendo com o tempo.
Isso sinaliza também uma questão de onipresença, com a IA saindo das telas e indo para dispositivos vestíveis e navegadores. Como isso impacta o consumo?
Impacta muito. Eu uso, por exemplo, o navegador com IA integrada (como o da Perplexity ou o Edge). Antes, eu entrava na Amazon, navegava, via promoções e decidia. Hoje, peço para o agente: “quero comprar tal produto, veja onde é mais barato e coloque no carrinho”. Ele busca, compara e já deixa pronto. Eu deixei de ter a experiência de navegação no site; foi o agente que influenciou a compra, tirando o intermediário da decisão. Isso vai gerar um embate no curto prazo entre os grandes portais de e-mail/vendas e esses agentes que automatizam a compra.
Existe a tendência de pessoas comuns criarem seus próprios agentes de IA?
Sim. Conheci pessoas que não são programadoras, mas estão criando produtos e agentes usando ferramentas low-code ou no-code (como n8n ou as novas funções do Google). Isso permite que o usuário final construa soluções tecnológicas para problemas pessoais ou profissionais. É uma oportunidade de democratização, onde as pessoas se tornam mais técnicas e capazes de construir suas próprias ferramentas.