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A pressão econômica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece estar reaproximando a relação entre a Índia e a China, que estava congelada há mais de cinco anos.

Pela primeira vez desde 2018, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, viajará à China a partir deste domingo (31) para participar de uma cúpula organizada pelo líder chinês Xi Jinping. A visita acontece após Trump impor tarifas de 50% sobre as importações de produtos indianos.

Em um momento de tensão geopolítica, os líderes da Índia e da China – que travaram um combate brutal na fronteira disputada em 2020 – agora podem apertar as mãos e priorizar a estabilidade econômica em detrimento da rivalidade.

Ao lado de Modi, líderes mundiais da Rússia, Paquistão, Irã e Ásia Central se juntarão a Xi Jinping neste fim de semana para o que Pequim chama de “a maior cúpula até agora” da OCX (Organização de Cooperação de Xangai), um grupo de segurança regional fundado pela Rússia e pela China com o objetivo de remodelar o equilíbrio de poder global.

A presença da Índia no evento é o exemplo mais revelador até agora do estreitamento dos laços entre as duas potências asiáticas – um realinhamento que ameaça desfazer anos de esforços dos EUA para manter Nova Déli como contrapeso à China na região.

Embora a relação entre a Índia e a China já estivesse se estreitando nos últimos tempos, analistas afirmam que as políticas “América Primeiro” de Trump estão levando os dois líderes, que construíram suas marcas políticas sobre uma base sólida de nacionalismo, a explorar uma parceria necessária.

Tarifas de Trump sobre a Índia

As tarifas de Trump sobre Índia como forma de punição pela compra de petróleo russo tem sido especialmente difícil para Modi, que tinha uma relação de amizade com Trump durante o primeiro mandato do presidente americano.

A ameaça das taxas “gerou um certo grau de urgência” em Nova Déli para estabilizar orelacionamento com Pequim, disse Manoj Kewalramani, que lidera os estudos Indo-Pacífico da Instituição Takshashila, na cidade indiana de Bengaluru.

No entanto, ele afirmou que este não é o “principal impulsionador” para uma reconfiguração do relacionamento, já que Nova Déli e Pequim também buscam estabilizar os laços em prol dos próprios interesses nacionais.

Vários governos da Casa Branca têm trabalhado para fortalecer os laços estratégicos com a Índia por meio de transferências de tecnologia e exercícios militares conjuntos, com o objetivo de combater a China, que tem sido cada vez mais assertiva na região do Indo-Pacífico.

Perder a Índia seria “o pior resultado” para os EUA, dizem analistas.

Trump e Modi se reúnem na Casa Branca em fevereiro • REUTERS/Kevin Lamarque
Trump e Modi se reúnem na Casa Branca em fevereiro • REUTERS/Kevin Lamarque

Melhoras no relacionamento entre China e Índia

Após uma reunião entre o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, e o primeiro-ministro Modi, em Nova Déli, na semana passada, ambos os lados reconheceram as melhoras no relacionamento tenso.

“As relações Índia-China têm progredido de forma constante, guiadas pelo respeito aos interesses e sensibilidades de cada um”, declarou o líder indiano. “Laços estáveis, previsíveis e construtivos entre a Índia e a China contribuirão significativamente para a paz e a prosperidade regionais e globais.”

A visão de Pequim, segundo Yun Sun, diretor do Programa China do think tank Stimson Center, em Washington, é que “esta calmaria foi definitivamente iniciada por Trump”.

“A Índia não consegue mais fingir que ainda conta com forte apoio (de Washington)”, disse Sun. Portanto, a visão de Pequim é que, como os EUA “recuaram”, Nova Déli precisa “recalibrar sua política externa e melhorar seu relacionamento com a China”.

Mas analistas afirmam que é improvável que a cúpula inaugure um realinhamento total.

“Para mim, não é uma redefinição no sentido de que a Índia está dizendo ‘estamos fartos da América’. Isso não vai acontecer”, afirma Kewalramani. “Os Estados Unidos continuam sendo o parceiro mais importante (da Índia) no mundo, mas a China é nossa maior vizinha. Temos que conviver com isso.”

Da amizade à rivalidade

A trajetória das relações Índia-China evoluiu de uma parceria pós-colonial para uma rivalidade estratégica moderna.

Nova Déli foi um dos primeiros países a estabelecer relações diplomáticas com a República Popular da China em 1950, década caracterizada por uma visão compartilhada de solidariedade asiática.

Essa amizade foi, no entanto, abalada pela Guerra Sino-Indiana de 1962, um conflito breve, mas brutal, que deixou um legado de profunda desconfiança e uma disputa de fronteira não resolvida.

Nas décadas seguintes, os líderes dos países tomaram medidas para construir laços econômicos que levaram ao crescimento do comércio bilateral, apesar das tensões persistentes em sua fronteira comum.

Mas os confrontos mortais no Vale de Galwan em 2020 – que deixaram pelo menos 20 soldados indianos e quatro chineses mortos – alteraram violentamente esse equilíbrio.

“Os confrontos de 2020 não são simplesmente algo que a Índia pode deixar para trás”, afirmou Farwa Aamer, diretora de Iniciativas do Sul da Ásia no Asia Society Policy Institute.

Em vez disso, o objetivo é garantir que episódios como aquele não se repitam, e é nisso que a reconstrução do relacionamento se baseia, em uma busca conjunta de estabilidade nas fronteiras.

Houve uma normalização gradual dos laços entre Nova Déli e Pequim após Modi e Xi se encontrarem às margens da cúpula do Brics na Rússia, em outubro de 2024.

Os dois lados concordaram em retomar os voos diretos entre os países, cancelados desde a pandemia de Covid-19.

Pequim concordou recentemente em reabrir dois locais de peregrinação no Tibete Ocidental para indianos pela primeira vez em cinco anos, e os dois países começaram a reemitir vistos de turista para os cidadãos um do outro.

O premiê indiano, Narendra Modi, e o presidente chinês, Xi Jinping • Foto: Twitter/ Reprodução
O premiê indiano, Narendra Modi, e o presidente chinês, Xi Jinping • Foto: Twitter/ Reprodução

Estratégias políticas

O reconfiguração dos laços da Índia e da China é um exemplo da política de autonomia estratégica, que prioriza os interesses nacionais em detrimento da fidelidade rígida a um bloco.

Na cúpula da OCX, além de Xi Jinping, Modi estará na presença do primeiro-ministro do Paquistão, com quem a Índia se envolveu recentemente em um conflito mortal, e da Rússia, cujas vendas contínuas de petróleo para a Índia desde a invasão da Ucrânia irritaram os EUA e levaram Trump a impor tarifas de 25% sobre produtos indianos como punição.

Esse envolvimento com um bloco dominado por Pequim contrasta fortemente com o aprofundamento dos laços da Índia com o Quad – um grupo de segurança com os EUA, Japão e Austrália – que é visto como um contrapeso democrático à crescente influência da China no Oceano Índico.

Com o impasse na disputa de fronteira, Nova Déli está optando por isolar os imperativos diplomáticos e econômicos do conflito de segurança com Pequim, segundo Kewalramani.

“Embora ambos os lados saibam que existem desafios estruturais e que esse relacionamento continuará difícil, os dois percebem que uma deterioração não é do interesse de ninguém”, disse ele.

O caminho para a estabilidade

A reconfiguração estratégica da Índia em relação a Pequim se baseia menos em uma postura de segurança atenuada e mais na necessidade econômica.

No ano passado, a China foi o segundo maior parceiro comercial de Nova Déli, depois dos EUA, com um comércio bilateral de US$ 118 bilhões, segundo dados do Departamento de Comércio da Índia.

A Índia depende de Pequim não apenas para produtos finais, como eletrônicos, mas também para produtos intermediários essenciais e matérias-primas que abastecem suas próprias indústrias.

No entanto, esse emaranhado econômico fica sob a sombra da tensa realidade militar.

Quaisquer negociações entre Modi e Xi seriam complicadas pelas dezenas de milhares de soldados ainda posicionados na fronteira com o Himalaia, e este conflito não resolvido continua sendo o principal obstáculo para a reconstrução da confiança.

Na semana passada, os dois lados concordaram com dez pontos sobre a questão da fronteira, incluindo a manutenção da “paz e tranquilidade”, segundo um comunicado do Ministério das Relações Exteriores da China.

Como observa Tanvi Madan, pesquisadora sênior do Centro de Estudos de Política Asiática no programa de Política Externa da Brookings Institution, “não está claro se os dois lados realmente confiarão um no outro”.

Segundo ela, o principal teste é se a retórica dos líderes se traduzirá em uma redução da tensão na prática, algo que já falhou antes.

O futuro da relação Índia-China será definido pela capacidade de ambos de administrar essa delicada dança.

O futuro, disse Aamer, da Asia Society, trará “talvez uma relação mais estável, onde a competição não necessariamente acabou, mas o conflito está sob controle”.

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